Leitura Complementar: NOEL ROSA_o6 / A Casa da Rua Moju

Capítulo 18 RISO DE CRIANÇA

Noel toma cafezinho num dos botequins do Ponto de 100 Réis quando Alegria chega, olhos brilhando, fala nervosa.

— Você não sabe o que eu descobri na Rua Moju, depois que te deixei ontem à noite na casa de Clara!

Noel ouve:

— Uma mulher lindíssima. Nunca vi uma tão bonita.

Alegria continua inquieto, excitado, diferente do habitual.

— Ficamos conversando. Marcamos um encontro para hoje à noite. Que mulher bonita, Noel! Não sei o que seria capaz de fazer por uma mulher assim. Você vai ver a Clara logo mais? Então vamos juntos.

Uma fulminante paixão à primeira vista. Dela Alegria jamais se curará. O tempo há de mostrar que suas palavras  "Não sei o que seria capaz de fazer por uma mulher assim"  podem ser tomadas ao pé da letra. Tão bonita que por ela largará tudo, a boêmia, as serestas, os planos de tentar carreira no rádio. Uma mulher de tal beleza que a gente tem de ficar perto dia e noite.

De início Noel talvez ache que o amigo exagera. Mas, ao sair certa noite da casa de Clara, Alegria está à sua espera na esquina da Rua Moju.

- É ali, Noel. No número 5!

E o sempre excitado Alegria explica que a paixão aumenta a cada instante. E mais: é correspondido. A mulher chama-se Martha Clara Dieppe Moreau. Uma deusa! Já estão fazendo projeto de irem morar juntos. Noel vê as coisas acontecerem muito rapidamente no coração e na cabeça do amigo, mas o que fazer?

Até que Alegria desperta também nele o interesse pelo número 5 da Rua Moju, transversal à Barão de Bom Retiro, a poucos passos da casa de Clara: moram outras moças lá. Todas bonitas.

Alegria pisca-lhe o olho. São moças diferentes destas meninas cheias de dedos e não-me-toques de Vila Isabel. Alegres, gostam de cantar, de rir, de contar anedotas. E de namorar também. Que tal fazerem uma serenata para elas amanhã? Martha vai adorar. Martha e as outras. Noel se anima.

A serenata é feita. E repetida na noite seguinte, na outra e em outras mais. Os seresteiros de Vila Isabel cantam para moças de cujos rostos só veem ligeiros contornos, as janelas da casa apenas entreabertas, as luzes apagadas. Alegria é todo paixão:

— Já decidi: se ela quiser, eu me caso amanhã.

Noel vai se aproximando aos poucos, chegando mais perto, até finalmente conhecer os moradores da casa. São quinze  oito mulheres, dois homens, cinco meninos  que se acomodam como podem nos dois quartos, sala, saleta e porão habitável. Alegria tinha razão quanto à beleza de Martha. Mas ela não é a única. Não se pode dizer que sejam todas bonitas. Nisso Alegria exagerou. Mas também moram ali pelo menos duas ou três pequenas que nada devem a Martha. Noel conclui isso logo no dia em que o amigo, já íntimo da casa, o apresenta a toda a família. O que vai demorar um pouco a concluir  ou mesmo a compreender bem  é a relação de parentesco entre as quinze pessoas, certos detalhes de suas vidas, como e por que vieram viver juntas nesta casa.

O centro de toda a história é o comissário de polícia José Orges Brandão, que por sinal não mora, nunca morou aqui. Como muitos cidadãos respeitáveis desse Rio de Janeiro tão romântico quanto maroto, o comissário — Juca para os mais chegados  tinha até bem pouco duas famílias, dois pousos. O oficial, que ainda divide com a mulher legítima, Iolinda, e este da Rua Moju, onde costumava passar as horas de folga ao lado de Martha Clara. Os meninos Nelson, Walter e Juquinha, filhos dessa relação, deixam claro que o comissário não é de brincar. Nem em serviço, nem nas horas de folga.

A vida dupla, contudo, não podia durar para sempre. Um dia Iolinda soube e não fez por menos: passou uma descompostura no marido, ameaçou fazer tudo para que não fosse incluído numa futura partilha dos bens de família (o sogro é um homem velho e muito perto de rico). Armou enfim um barulho em grande estilo. Na base do 'ou eu, ou ela', Iolinda exigiu que o marido nunca mais pusesse os olhos na outra. Uma decisão difícil para o comissário. Não só porque seu coração ainda batia forte por Martha Clara, mas também pela existência de um dado que complicou muito a história: Iracema, filha única de seu casamento com Iolinda, tivera uma briga feia com a mãe, saíra de casa e fora morar justamente com Martha Clara, a outra mulher do pai. Mais tarde conhecera Reinaldo, casaram-se, tiveram filhos.

Quando Iolinda descobriu tudo, oito pessoas moravam na casa 5 da Rua Moju: Martha, os três filhos dela com o comissário, Iracema, Reinaldo e os dois filhos dos dois, Ary e Haroldo.

Desde aquele dia  da descoberta, da descompostura, das ameaças, do ultimato na base do 'ou eu, ou ela' — José Orges Brandão não teve mais trégua. Passou a ser mais vigiado do que os ladrões que ele próprio vigiava, do Centro ao Caxambi. Não dava um só passo sem que a mulher não soubesse, parentes, amigos, espiões ocasionais indo contar onde esteve e o que andou fazendo. Chegava em casa e logo vinha a mulher:

 O que é que o senhor fazia às três da tarde na Quinta da Boa Vista?

Ou então:

 O senhor não estava de serviço na cidade? Então por que foi visto na hora do almoço em São Cristóvão?

Mal podia respirar o comissário. E como não estava em seus planos desaparecer de vez da Rua Moju, tratou de arranjar um pretexto, um bom motivo para ir lá sem que a mulher suspeitasse. Assim, quando Iolinda chegasse com aquele ar fechado e lhe perguntasse: "O que fazia o senhor na Rua Moju?" responderia:

 Visitava minha irmã.

Explica-se: Luísa Lima Campos, irmã do comissário, morava até então com as filhas Teresinha, Rosinha e Esmeralda e o filho Zeca numa paupérrima casa de madeira, pode-se dizer um barracão, na Rua Souza Barros, do outro lado da estação do Engenho Novo, perto da fábrica de papelão. Há muito tempo José Orges Brandão vinha prometendo tirá-los dali, a irmã, as três sobrinhas, o sobrinho, todos vivendo no desconforto de um casebre de terra batida. Mas uma coisa e outra foram adiando o generoso gesto do comissário, até que, levado pelas circunstâncias, ele se livrou de um problema resolvendo outro: fez dona Luísa e os outros moradores do barracão mudarem-se para a casa 5 da Rua Moju.

O comissário? Bem, nem tudo saiu como ele queria. Pois se a presença da irmã naquela casa o livraria de possíveis problemas com a mulher, por outro lado o fazia perder para sempre os carinhos de Martha. Afinal, como manter o romance sob os olhos conservadores e críticos da irmã mais velha? Como continuar aparecendo por lá para ver Martha, perdendo assim o respeito da família? O comissário acabou saindo de cena.

Foi aí que entrou Alegria. E, por intermédio dele, Noel. Martha Clara é de fato bonita, educada, graciosa. Tem uma bela voz de soprano, que usa nos saraus de sábado. Filha do engenheiro Arthur Dieppe Moreau  o mesmo que projetou inúmeras obras públicas importantes, entre elas o prédio do Corpo de Bombeiros no Méier  orgulha-se de sua ascendência europeia, os antepassados alemães e belgas sempre mencionados nas conversas. Mas nada disso impressiona muito Noel, cujos olhos se viram para outro lado.

Dona Luísa, na verdade, tinha quatro filhas. Mas a mais velha, Noêmia, morreu há dez anos. Era casada com o sírio Theodoro Felix, que durante algum tempo cuidou das duas filhas Josefina, a Fina, e Noêmia, a Bazinha.

Theodoro casou-se de novo, a segunda mulher achou melhor ter os próprios filhos e dona Luísa acabou levando as duas netas para morar com ela. Agora estão todos na casa da Rua Moju. Ainda pobres, mas com conforto.

É por Fina que Noel se interessa. Tem quinze anos neste 1930 e é realmente muito bonita. Morena, cabelos castanho-claros, olhos vivos, sorriso de criança. Dona Luísa e o filho Zeca  a quem as moças chamam de center-half pela severa marcação que exerce sobre elas  têm de se desdobrar para manter sob sua guarda e sobretudo ao alcance de seus olhos moças tão ativas, tão cheias de vida. Principalmente Teresinha. E Fina. São duas jovens que acham, com toda a razão, que a vida foi feita para ser vivida. Respeitam o conservadorismo de dona Luísa, mas creem, convictas, que o maior bem que se pode ter é a liberdade. As outras talvez tenham a mesma maneira de pensar, só que não são tão ousadas, de modo que entre o pensamento e a ação sempre se mantém uma distância feita de prudências. Seja como for, dona Luísa e Zeca vigiam, abrem os olhos, tentam o mais que podem seguir os passos das garotas. As janelas fechadas e as luzes apagadas, durante as serenatas de Alegria e Noel, faziam parte deste zelo.

 Não se exponham, não sejam oferecidas  vive recomendando dona Luísa. Hoje faz-se tudo às claras. Ou quase tudo. Alegria está firme com Martha, quer mesmo se casar, diz que vai comprar um carro, trabalhar na praça, ganhar um dinheirinho para manter a família. E Noel namora Fina. Quando esta lhe pergunta quem é a moça que ele costuma ver na Rua Barão de Bom Retiro, a resposta é evasiva, apenas meia-verdade:

 É Clara. Trabalha na escola de minha mãe.

(...) duas mulheres repartem seus carinhos neste começo de 1931: Clara e Fina. Tem sido difícil sair, sem despertar suspeitas, dos braços de uma para os da outra. Afinal, elas continuam sendo quase vizinhas.

Mas ele sabe dividir seus horários, vendo Clara à saída da escolinha em Vila Isabel, Fina em noturnos e escondidos passeios de carro e ainda conquistando outras garotas em suas andanças pela madrugada.

É muito carinhoso com Clara. Especialmente agora que ela chora um duro e repentino golpe: a morte da mãe. (...) Noel é sensível à dor da namorada, trata-a com afeto, cerca-a de atenções. Dona Martha também. Gosta muito de Clarinha, ainda acredita que ela será a filha que não teve, a bonita e meiga professorinha com que a vida presenteou Noel.

Com Fina, ficam as saídas noturnas no carro de Valuche ou de Malhado. Sempre a quatro, pois não é problema para nenhum deles arranjar uma pequena que queira fazer companhia a Fina numa viagem de prazeres até o Alto da Boa Vista, Leblon, Jacarepaguá e outros recantos desertos. Tudo escondido de dona Luísa, evidentemente. E dos outros moradores da casa da Rua Moju. Imagine se soubessem por onde anda a travessa Fina...

Alegria já não faz parte desses passeios. Nem das serenatas. Como tinha dito a Noel, seria capaz de qualquer coisa por Martha Clara. Até se casar. E foi exatamente o que fez, de repente, nos primeiros dias do ano. Comprou um carro de praça, montou casa no Boulevard e para lá levou, apaixonadíssimo, Martha Clara, Nelson, Walter, Juquinha, os três filhos do comissário que criará como seus. Para Alegria, os tempos de boêmia terminaram. Daqui a alguns meses  22 de outubro de 1931  nascerá o único filho de seu casamento. Chamará o amigo Noel Rosa para irem juntos registrar o menino. E lhe fará uma surpresa.

 Sabe que nome vamos dar a ele?

 Não.

 Noel.

Transcrito de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Josefina, a Fina, sobrinha-neta do comissário José Orges Brandãomoradoras da casa da rua Moju número 5.

Clarinha, que vive na casa em frente ao bangalô da família de Noel e posteriormente vai morar no Engenho Novo, numa rua que, por coincidência, faz esquina com a Moju. O retratinho foi recortado em formato de coração pelo próprio Noel.