Leitura Complementar: NOEL ROSA_o6 / Nem Rei, Nem General

"Eu não pensava em ser general, nem Presidente da República. Que valia o próprio fastígio dos reis, dos soberanos absolutos, diante do encanto comunicativo dos criadores de ritmo?" (entrevista ao Jornal de Rádio)

Capítulo 14 NEM REI, NEM GENERAL

Não há distância que não se reduza à metade. Noel tem e terá sempre muitos amigos motoristas de praça, todos dispostos a dar uma carona, seja para onde for. 

Neste 1930, porém, três merecem especial atenção. São três boêmios, todos devotos das noites e das serenatas. Mais velhos que Noel, mas também jovens, solteiros, boêmios. Um deles é o amigo Alegria, que ainda não tem seu próprio carro, mas costuma conseguir um emprestado para fazer biscates na praça. O segundo, Valuche. O terceiro, Malhado.

Dos três, Francisco Valuche é o mais aprumado, o que tem melhor situação, funcionário do Ministério da Fazenda pela manhã, motorista particular de um homem importante o resto do dia. O 'doutor' empresta-lhe seu reluzente Dodge de cor preta na parte da noite, não se interessando em saber com quem sai ou aonde vai Valuche.

Quanto a Malhado, Serafim Vieira da Cunha, faz ponto na Praça da Bandeira mas vive em Vila Isabel atrás do pessoal da seresta.

— Ainda hei de cantar no rádio  costuma repetir.

O apelido de Malhado se deve às manchas que tem pelo corpo: vitiligo. É mesmo um seresteiro. Não na voz, que ao contrário do que pensa não tem a potência e afinação da de Vicente Celestino. Malhado sequer canta tão bem quanto Alegria. Mas é um seresteiro na medida em que se delicia em varar madrugadas cantando acompanhado pelo violão de Noel.

    Canto
    E a mulher que eu amo tanto
    Não me escuta, está dormindo

    Canto e por fim
    Nem a lua tem pena de mim
    Pois ao ver que quem te chama sou eu
    Entre a neblina se escondeu

Vibra com as canções de Eduardo e Cândido das Neves, tem um caderno onde todas elas estão anotadas. Abre o mais alto possível a voz maldotada. Os amigos não o levam a sério como cantor. Noel costuma acompanhá-lo de forma caricata, extraindo do violão efeitos esquisitos, citações grotescas de músicas muito conhecidas, de La Cumparsita a Meu Boi Morreu, que acabam fazendo Malhado desafinar ainda mais, confundido por tantos e tão complicados acordes. Os outros participantes das serenatas riem, Noel ajoelhado na calçada, a perna esquerda dobrada para apoiar o violão, e Malhado cantando:

    Jurei amar-te e só não mais querer-te
    Quando morto baixar à sepultura

Às vezes Malhado leva mais longe seu entusiasmo:

— Cantar no rádio? É pouco. Acho que vou tentar a ópera. Vicente Celestino também não canta ópera?

Os três motoristas acompanham Noel por toda parte. Um ajuda o outro, tocando violão, compondo, cantando ou guiando o automóvel. Mudam apenas as canções. E as janelas sob as quais se postam, hoje de uma mulher que Valuche corteja, amanhã de uma em quem Alegria está de olho. É evidente que muitas serenatas são feitas para Clarinha [de quem Noel gosta].

Nem sempre há um carro à disposição para as frequentes viagens de Noel. Pode acontecer de Alegria, Valuche e Malhado terem outros programas, prazeres ou compromissos que os afastem de Vila Isabel, deixando o poeta a pé. Como acontece certa noite em que é convidado para uma festinha de aniversário no Engenho Novo.

Costuma aborrecer-se logo nesses bailaricos familiares, casais dançando e conversando à volta de mesas de doces e salgadinhos, refrescos, ponches e chope em jarra. Em geral, antes de meia-noite já está ele se despedindo.

 Fica mais um pouco  dizem anfitriões e convidados.

 Por que tão cedo?

Noel explica que tem um compromisso importante, o amigo Cobrinha o espera na Praça 7. Uma reunião inadiável, algo assim. Infelizmente, tem mesmo de ir.

 Pra onde você vai?  pergunta alguém.

— Eu vou pra Vila.

Já a caminho de casa, num banco vazio do Vila Isabel-Engenho Novo, suas próprias palavras ficam a martelar-lhe a mente: "Eu vou pra Vila... eu vou pra Vila"...

Começa a cantarolar uma melodia, música e versos saindo-lhe ao mesmo tempo, no bonde, tarde da noite. No dia seguinte, com a ajuda do violão, fará um novo samba:

    EU VOU PRA VILA

    Não tenho medo de bamba
    Na roda do samba
    Eu sou bacharel (sou bacharel)

    Andando pela batucada
    Onde eu vi gente levada
    Foi lá em Vila Isabel...

    Na Pavuna tem turuna
    Na Gamboa, gente boa
    Eu vou pra Vila
    Aonde o samba é da coroa

    Já saí de Piedade
    Já mudei de Cascadura
    Eu vou pra Vila
    Pois quem é bom não se mistura
    
    Quando eu me formei no samba
    Recebi uma medalha
    Eu vou pra Vila
    Pro samba do chapéu de palha
    
    A polícia em toda a zona
    Proibiu a batucada
    Eu vou pra Vila
    Onde a polícia é camarada

Com Eu Vou Pra Vila, Noel Rosa não só rende seu primeiro tributo ao bairro onde nasceu, como também faz um dos primeiros registros de que se tem notícia de um dos mais marcantes aspectos dessa fase pioneira da história de nossa música popular: a perseguição policial aos batuqueiros, aos compositores e cantores de samba.

É bom que se lembre: já existem na cidade pelo menos dois tipos de samba. Um é aquele que se faz, toca e dança nas casas de Ciata e outras 'tias' baianas. O outro, o do Estácio e cercanias, dos morros e subúrbios distantes. Com o primeiro, frequentado por doutores, intelectuais, políticos, gente importante, a polícia não se mete. Com o segundo, lazer das populações pobres daquelas localidades um tanto à margem da sociedade, o desemprego e o subemprego compelindo os homens a atividades malvistas ou mesmo proibidas (o jogo, o servicinho sujo, a exploração de mulheres, mil e um expedientes, mas nunca o trabalho fixo), cumpre-se a lei: lugar de malandro é na cadeia.

Os dois tipos de samba — aquele amaxixado da Cidade Nova e o outro da turma do Estácio — não dividem a cidade apenas musicalmente. Se se for ver bem, há uma separação social entre eles. Perseguições a ex-escravos, filhos e netos de escravos que fazem música, dançam, cultuam seus orixás, existem no Rio desde os últimos anos do século passado. Embora não chegasse a haver uma lei contra tais manifestações, a polícia sempre deu batidas em terreiros onde se evocavam os santos e se trocavam umbigadas. A própria Igreja, em certa época preocupada com a disseminação dos cultos afros, andou abençoando tais batidas. Hoje, contudo, já se fazem nítidas diferenças: a polícia tolera e até participa dos fungangás nas casas das 'tias' baianas, agora pomposamente rotulados de 'cultura afro-brasileira', mas continua perseguindo o pessoal do morro, cujo rótulo não muda: são todos malandros.

Os músicos daquele tipo de samba são respeitados como profissionais, tocam em teatro, cinema, casas de família rica. Como Pixinguinha e seus amigos, tão respeitados que um homem da posição social de Arnaldo Guinle financiou-lhes uma viagem a Paris, há oito anos, em 1922.

    Nous sommes batutas
    Venus du Brésil
    Nous faisons tout le monde
    Danser le samba!

Os sambistas de morro nem como músicos são vistos. Desordeiros, isso sim. Muito porque suas festas semiclandestinas não se limitam ao samba propriamente dito, mas também à batucada, não raro terminando em briga, conflito, morte.

Realmente a polícia em todo canto proibia a batucada. Não a batucada como a conhecemos hoje (a percussão com que se acompanha o samba), mas a batucada como jogo da malandragem: uma roda, no centro da qual dois homens se enfrentavam ao som de batidas de mão e coro de refrãos próprios ("Derruba, é ê / ô derruba, bota no Chão / derruba, mano, derruba / sem dó no teu coração..."). Um dos homens era escalado para tentar derrubar o outro com um único golpe de perna, a banda. O adversário tinha que permanecer de pé, estático, 'plantado'. Quem plantava desta vez, da próxima escolhia um da roda para ser por ele derrubado. Velhos ódios e inimizades eram transferidos para o centro da roda. Os bambas nesse jogo (o termo bamba vindo do quimbundo e querendo dizer valente, autoridade) eram Waldemar da Babilônia, Pico da Favela, Madureira do Engenho Velho, Artur Mulatinho do Catete, Gargalhada do Salgueiro, Maçu da Mangueira e Brancura do Estácio. Brigas sangrentas e até mortes eram frequentes. A roda de batucada, portanto, diferia em muito da roda de samba, inocente arte na qual o único objetivo era cantar e dançar.

Às vezes acontece de a polícia dar uma batida e encontrar o pessoal entregue aos cerimoniais da macumba. Nesse caso, respeita. Se é cultura afro-brasileira lá em baixo, por que não seria cá em cima? Mas, tão logo a justiça se vá, o samba começa. São heroicos esses sambistas do Estácio. Para fazerem vingar o seu canto, a sua música, para que sua arte espontânea, intuitiva, pura e inofensiva fosse aceita, para que eles pudessem dar à sua cidade um outro tipo de samba, tiveram de sofrer muito. Surras, humilhações, desassossego. Seus terreiros invadidos por policiais armados, seus blocos desfeitos a golpes de cassetete, eles próprios presos como vagabundos. É dessa perseguição que fala Noel em dois versos do Eu Vou Pra Vila, os sambistas do Estácio, frequentadores da zona (a maioria tem mulher ali), impedidos de fazer sua batucada.

O samba é gravado por Almirante e o Bando de Tangarás. Uma excelente gravação, o grupo entoando em coro a duas vozes, preguiçosamente, de maneira bem carioca, a expressão título: "Eu vou pra Vila..." A terça é feita uma oitava abaixo por Almirante. A letra original é rigorosamente respeitada no disco, mas na partitura impressa há uma intervenção moralista dos editores, que acham melhor substituir "a polícia em toda zona" por "a polícia em todo canto". Mais distinto, porém menos preciso.

Transcrito de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagem: Autocaricatura Noël por Noël, acervo da Revista Manchete.