Leitura Complementar: NOEL ROSA_o7 / Um Certo Ismael

Capítulo 21 UM CERTO ISMAEL

Noel Rosa e Francisco Alves estão sentados à mesa de um daqueles botequins do Centro que costumam frequentar. Tomam cafezinho. Talvez falem de música. Talvez conversem sobre o Pavão, que Noel continua pagando. Um tanto agitado, chega Ismael Silva.

 Que é que há, Ismael?

Ele conta que vinha pela rua, tranquilamente, quando lhe baixou sobre a cabeça, como se caído do céu, um estribilho inteiro, música e letra. Receoso de esquecer o que bem pode ser o começo de um bom samba, diz:

— Vou cantar pra vocês. Sabem como é, três cabeças lembram melhor que uma.

E canta:

    Estou vivendo com você
    Num martírio sem igual
    Vou largar você de mão com razão
    Para me livrar do mal

Noel não perde tempo:

— Posso fazer a segunda parte? A proposta não só pega de surpresa como invade o peito de Ismael Silva.

Ele canta um simples estribilho, sem maior importância, e eis que Noel, ninguém menos que Noel Rosa, a quem todos vivem implorando parceria, vem lhe pedir, com toda a humildade, para fazer a segunda parte. Ismael mal pode acreditar. Sente-se de tal forma tocado que nem sabe o que dizer.

— Repete esse estribilho aí, Ismael — pede Francisco Alves.

Ismael canta de novo. Depois, vira-se para Noel:

— A segunda é sua.

Noel não fará uma, mas duas segundas partes:

    Supliquei humildemente
    Pra você endireitar
    Mas agora, infelizmente
    Nosso amor tem que acabar
    Vou-me embora afinal
    Você vai saber por quê
    É pra me livrar do mal
    Que eu fujo de você
    
    Você teve a minha ajuda
    Sem pensar em trabalhar
    Quem se zanga é que se muda
    E eu já tenho onde morar
    Nunca mais você encontra
    Quem lhe faça o bem que eu fiz
    Levei muito golpe contra
    Passe bem, seja feliz

Dias depois, mostra-as a Ismael Silva e Francisco Alves. E este também não perde tempo: decide gravar o novo samba, Para Me Livrar do Mal, do qual, desde logo, intitula-se 'coautor'. Trato é trato, lembra ele a Ismael. O que Noel ouve sem a menor surpresa.

Tem sido assim há muito tempo. Todo o mundo sabe que nesse acordo de boca entre Ismael e Francisco Alves um entra com o samba e o outro com a voz. Nenhum dos dois faz segredo disso. E não adianta dizerem que Ismael está sendo explorado: no fundo, ele se sente até grato.

Recorda-se da época ruim que viveu em 1927, seus exames de sangue acusando uma penca de cruzes, a sífilis obrigando-o a se recolher a um leito do Hospital da Gamboa. Estava lá, triste da vida, com medo mesmo de morrer, de nunca mais voltar ao Estácio e aos seus sambas, quando Alcebíades Barcellos, o Bide, veio lhe fazer uma visita.

— Te trago uma proposta, Ismael.

— Que proposta?

— Sabe o Francisco Alves?

— Claro, o cantor.

— Pois é. Ele andou ouvindo uns sambas teus por aí. Gostou. Mandou que eu viesse aqui com estes 100 mil réis.

— Pra que tanto dinheiro?

— O Francisco Alves quer te comprar o Me Faz Carinhos.

Há cinco anos, 100 mil réis era muito mais do que Ismael Silva poderia ganhar em quase um mês de biscates e empregos fixos. A vida era bem mais dura que a de hoje, obrigando-o a pegar o que lhe aparecesse, a ser de menino de recados num escritório de advocacia a servente da Central do Brasil e vendedor de remédios. Samba não passava de coisa de hora vaga, prazer cultivado nas mesas de botequim, nas tendinhas, nos terreiros. Cem mil réis! Então o Bide lhe aparecia com aquele dinheirão todo, no hospital, para comprar-lhe um simples samba?

Desde rapazinho, no Catumbi, quando participava de uma roda onde brilhavam o Nonô, o Avelino, os irmãos Armando e Norberto Marçal, este mais conhecido por Manga, fazer samba para Ismael é quase um brinquedo. Mais tarde, ao mudar-se para o Estácio, passou a frequentar o Apollo, o Café do Compadre, os lugares onde se reuniam os bambas do bairro. E não demorou muito a tornar-se tão ou mais respeitado que qualquer um deles. Bide, Mano Edgar, Baiaco, Brancura, todos podiam ser muito bons, mas era quase sempre com sambas de Mano Rubem e Ismael Silva que saíam os blocos da redondeza, um dos quais o famoso Deixa Falar. Uma tuberculose galopante matou Rubem, aos 23 anos, em 1927, o mesmo ano da compra do Me Faz Carinhos. De modo que desde então, Ismael reinou mais ou menos absoluto. Nestes blocos desfilava, só para aprender o que se cantava, o mesmo e sempre atento Francisco Alves.

No hospital, Bide explicou a Ismael que o cantor ficava cada vez mais admirado quando, ao perguntar de quem era determinado samba, lhe respondiam, quase que invariavelmente: "É do Ismael...". Pelos cem mil réis o negócio foi fechado ali, Francisco Alves tornando-se dono do Me Faz Carinhos, como logo depois, novamente por cem mil réis, compraria outro samba de Ismael, o Não é Isso Que Eu Procuro e, já em 1929, o Amor de Malandro, destinado a ser um dos sucessos do carnaval de 1930.

    Vem, vem, que eu dou tudo a você    
    Menos vaidade, tenho vontade
    Mas é que não pode ser

O tempo passou. Francisco Alves continuou fazendo sucesso em disco e Ismael não parou de compor seus sambas. Até que, em fins de 1930, Francisco Alves procurou-o de novo. Desta vez, sem intermediários. Estacionou o carro em frente ao Café do Compadre, chegou à porta e dali gritou, bem alto, o nome de Ismael, que tomava cerveja numa das mesas do fundo. Ismael levantou-se, foi ao encontro do cantor e este, já sob a luz do poste da esquina, pediu-lhe:

— Me canta aí uns sambas teus.

— Pra quê?

— Pode ser que algum me interesse.

Ismael Silva, acompanhado pelo violão do próprio Francisco Alves, começou a cantar. Um, dois, vários sambas. Um desfile de coisas novas, todas boas, que Francisco Alves ia captando:

    Nem tudo que se diz se faz
    Eu digo e serei capaz...

— Entre ali no meu carro. Vamos dar umas voltas pela cidade.

Francisco Alves, Ismael ao seu lado, deu voltas e mais voltas pelo Centro. Conversando, falando do quanto os dois poderiam ganhar com aqueles sambas, das vantagens de se tornarem parceiros. Comprometia-se a gravar tudo de bom que Ismael fizesse, dividindo com ele cada tostão ganho na vendagem dos discos. Em troca, Ismael entregaria a Francisco Alves tudo que fosse compondo. Os sambas gravados e editados, naturalmente, levariam a assinatura dos dois. Ismael pensou um pouco, o carro dando voltas. E disse:

— Acontece que já tenho trato com um amigo.

Explicou, então, que o amigo era Nílton Bastos, excelente compositor dali mesmo, do Estácio. Muitos dos sambas que Francisco Alves acabara de ouvir tinham sido feitos pelos dois, Ismael e Nílton. Eram tão amigos, tão afinados, que acabaram fazendo um acordo:

— Faça ele, faça eu, o que for feito é dos dois.

Para Francisco Alves não havia o menor problema:

— Então a gente inclui ele na parceria.

O resto é parte da história, o trio Ismael Silva, Nílton Bastos, Francisco Alves assinando uma sucessão de joias do samba carioca. Sambas que, nos dois anos seguintes, conquistariam não só a cidade, mas todo o país: Nem É Bom Falar; Não Há; Olê-Lê-Ô; Arrependido; O Que Será De Mim?; Ironia; Eu Bem Sei. Quem não se lembra da ovação que os dois sambistas do Estácio receberam quando Francisco Alves chamou-os ao palco do Teatro Lyrico, depois de cantar, no concurso de sambas e marchas para o carnaval de 1931, o irresistível Se Você jurar?

Mesmo após a morte de Nílton, o sucesso prossegue, Francisco Alves levando Ismael para toda parte, fazendo dele o seu secretário particular ("É o meu braço direito...").

Francisco Alves, sozinho ou em dupla com Mário Reis, gravou em 1931 e 1932 um total de quinze sambas como parceiro de Nílton Bastos e Ismael Silva. Tudo dentro do esquema, Ismael compondo, Francisco Alves gravando. Nos teatros, nos circos, onde quer que vá, o cantor faz questão de chamar o parceiro à cena para apresentá-lo ao público.

— Este é o Ismael Silva, um preto de alma branca.

Noel Rosa não se surpreende nem um pouco ao ver Francisco Alves conseguir um lugarzinho entre ele e Ismael Silva como autor de Para Me Livrar Do Mal. O que talvez o surpreenda é o convite que o cantor lhe faz:

— Que tal você se juntar a nós? No lugar do Nílton.

Ismael Silva lembra, cheio de saudade, o parceiro e amigo Nílton Bastos, que a morte levou há poucos meses, na noite de 8 de setembro de 1931. Justamente quando começava a melhorar de vida, o dinheiro do samba reforçando bastante seu parco salário de mecânico do Arsenal de Guerra, dois pulmões frágeis o levaram de vez. E de repente: dois ou três meses antes de morrer, Nílton, tão bom de bola quanto de samba, chegou a jogar uma partida de futebol num dos campos da Cidade Nova. Parecia em forma, correndo, chutando, driblando. E no entanto, não duraria muito.

Era um mulato claro, de traços finos, muito delicado, destoando quase naquela turma do Estácio em que pontificava a valentia de um Brancura, de um Baiaco, sujeitos que nunca se afastavam de suas navalhas. O próprio Ismael era de uma turma um tanto pesada, sempre metido naquele jogo de chapinhas no Largo do Estácio, em frente à Escola Normal. Ele, o Osvaldo Papoula, o Bernardo Mãozinha, de novo o Brancura. Nílton Bastos, não. Educado, incapaz de dizer nome feio, de gritar com alguém, de se meter em valentias, diferente de todos.

— O Nílton era um amor de gente — costuma repetir Ismael.

Quando tiveram início as transações de Francisco Alves com os dois grandes sambistas do Estácio, Mário Reis aproveitou para se aproximar. Sempre foi assim, a admiração de Mário feita de receios que o deixam um tanto à distância.

— Chico, estes caras não são perigosos?

Se Francisco Alves ia ao morro da Mangueira procurar Cartola, ou se circulava pelo Estácio atrás de Nílton e Ismael, Mário se punha na retaguarda. Deixava Francisco Alves ir na frente e, se tudo estivesse bem, se chegava, desconfiado. Deus o livrasse de subir a Mangueira! Salgueiro, Saúde, Gamboa, Favela? Não era com ele.

Mas, no dia em que conheceu Nílton Bastos, começou a mudar de opinião sobre os sambistas. Duas coisas o aproximaram muito de Nílton: a paixão de ambos pelo futebol e, é claro, a música. Não tinha limites a admiração do cantor pelo compositor. De início pensou até que o forte da dupla era Nílton e não Ismael (em grande parte por estar convencido de que, naquela história de "faça ele, faça eu, o que for feito é dos dois", Ismael Silva nada fizera em Se Você Jurar, primeira, segunda, música, letra, tudo de Nílton) . Mas um dia ouviu do próprio Nílton Bastos:

— Quer saber quem é o melhor de nós todos? O Ismael.

Francisco Alves, Mário Reis, Ismael Silva, o pessoal do Café do Compadre, todo o mundo foi visitar Nílton na casa em que ele agonizava, na Rua Dona Zulmira, no Maracanã. E todos sabiam o que sua perda representava para o samba carioca. Francisco Alves, numa daquelas sombrias visitas, quando se sentia cheiro de morte por toda parte, tentou desanuviar o ambiente. Para reanimar o moribundo, cantou altissonante:

    Quando eu morrer
    Não quero choro nem nada
    Eu quero ouvir um samba
    Ao romper da madrugada

*

Mário Reis relata essa passagem em entrevista incluída no ABC de Sérgio Cabral como se Francisco Alves tivesse cantado:

    Quando eu morrer
    Não quero choro nem vela...

Deve ter se enganado. Estes versos, de Noel Rosa, são posteriores à morte de Nilton Bastos. Os citados no texto são os prováveis, já muito conhecidos na época. De um autor anônimo do Estácio de Sá, havendo quem os atribua a Rubem Barcellos, o Mano Rubem.

*

Agora, Chico quer que Noel ocupe o lugar de Nílton. E por que não? O acordo em torno do Chevrolet cor de azeitona obriga o comprador a desembolsar sambas para o vendedor. Quanto mais Noel trabalhar para Chico, mais rápido pagará o Pavão. Concorda. Mas há um detalhe: os sambas que Noel fizer serão só seus, sem intromissões indevidas. Como este Tudo Que Você Diz, feito tão rigorosamente dentro do figurino do Estácio que Ismael Silva bem poderia assiná-lo:

    Tudo que você diz
    Com a maior lealdade
    É mentira
    É usar de falsidade
    (Fale a verdade)
    
    Toda gente fingida
    Paga o mal que fez nesta vida
    Por encher de ilusão
    Um pobre coração
    
    Quando alguém não esquece
    A pessoa por quem padece
    É porque tem saudade
    Da própria falsidade
    
    Pode crer que a mentira
    O sossego sempre nos tira
    Fale sempre a verdade
    Mesmo sem ter vontade
    Tenho jeito pra tudo
    Pra mentir, porém, fico mudo
    Pois fugir da verdade
    Nem por necessidade

Justo ou não o acordo — exagerando ou não, Ismael ao dizer que só a voz de Francisco Alves pode levar seus sambas ao sucesso — é a partir de Para Me Livrar Do Mal, e sob as bênçãos do cantor, que vão se aproximar dois grandes talentos da música popular brasileira. Talentos? É pouco para definir Ismael Silva e Noel Rosa, o Ismael do Estácio e o Noel da Vila. Da mesma forma, é limitador ver essa aproximação sob um prisma estritamente geográfico, como se cada um pertencesse ao seu respectivo bairro e não a todo o Rio que há muito lhes canta as músicas. O namoro de Noel com o Estácio (ou com o tipo de samba que deve ter nascido com Mano Rubem e sua gente), já se viu, é antigo. Também é antiga a admiração, quase adoração de Ismael por Noel. Na verdade, Para Me Livrar do Mal não é a primeira de suas parcerias. No ano passado, pouco depois da morte de Nílton Bastos, Francisco Alves entregou a Noel o estribilho de uma marcha que Ismael havia feito:

    Olha, escuta, meu bem
    É com você que eu estou falando, neném
    Esse negócio de amor não convém
    Gosto de você, mas não é muito... Muito!

Atendendo ao pedido do cantor, que pretendia gravá-lo já para o carnaval de 1932, Noel cuidou das segundas partes, na primeira delas fazendo brincadeira com a demagogia burocrática de nossas repartições públicas (...).

    Fica firme, não estrilha
    Traz o retrato e a estampilha
    Que eu vou ver
    O que posso fazer por você
    
    Seu amor é insensato
    Me amotinou, mesmo, de fato
    Não leve a mal
    Eu prefiro a Lei Marcial.

(...) Produzido sem que Ismael e Noel se conhecessem além dos encontros rápidos em corredores das emissoras de rádio, nas mesas de café, nas esquinas do Centro, Gosto, Mas Não É Muito terá importância menor na obra que, a partir de Para Me Livrar do Mal, eles vão construir juntos. Caso diferente, por exemplo, é o de Adeus. Há quem diga que o estribilho de Ismael é uma homenagem ao amigo morto Nílton Bastos.

    Adeus, adeus, adeus...
    Palavra que faz chorar
    Adeus, adeus, adeus...
    Não há quem possa suportar

Os versos tanto servem para falar de um amigo que se foi como de um amor que se perdeu. Noel, contudo, é explícito. Prefere a segunda vertente ao criar as segundas partes, embora o breque dado pelos cantores ao final das mesmas, antes de retornar ao refrão, "Foi o último adeus...", traga de volta a morte como tema.

    Adeus é bem triste
    E não se resiste
    Ninguém, jamais,
    Com adeus pode viver em paz
    (Foi o último adeus...)
    
    Pra que foste embora?
    Por ti tudo chora!
    Sem teu amor
    Esta vida não tem mais valor
    (Foi o último adeus...)

Ismael e Noel criarão muito juntos. Nenhum outro comporá tanto com o poeta de Vila Isabel quanto o sambista do Estácio. Atraídos pela admiração recíproca, integrados pelos respectivos talentos e, curioso, tendo a aproximá-los o Pavão, farão sambas bonitos como este Quem Não Quer Sou Eu.

    Quando eu queria o teu amor
    Não davas atenção ao meu
    Pra mim tu não tens mais valor
    Agora quem não quer sou eu

    Observo que hoje em dia
    Quem não quis diz que me quer
    Cabe muita hipocrisia
    Num capricho de mulher
    Vou viver desiludido
    Sem amor, sem ideal
    Pra não ser submetido
    A desejo tão banal
    
    Ao ouvir tua proposta
    Com tão falsas frases juntas
    Achei uma só resposta
    Que responde mil perguntas
    Hás de ter em tua vida
    Um destino igual ao meu
    Podes ir desiludida
    Hoje quem não quer sou eu

E outros tão ou mais inspirados. O Já Sei Que Tens Um Novo Amor:

    Já sei que tens um novo amor
    Não vá depois se arrepender
    Não voltes, mulher, nunca mais
    Sofre calada, não dá a perceber
    
    Sem dar a perceber também sofri
    Desde o infeliz momento em que te vi
    E hoje o que me fere o coração
    É saber
    Que foste embora sem razão
    
    Por causa de outro amor tu vais sair
    Eu não quero que tu venhas me pedir
    Desculpas pelo teu procedimento
    Nem que chores
    Aumentando o meu tormento. 

O mesmo caso de Nunca Dei A Perceber:

    Não é só quem vive em pranto
    Que sabe o que é sofrer
    Eu sofro e no entanto
    Nunca dei a perceber
    E são tristes os meus ais
    Pois quando a gente sente
    E não chora
    Sofre muito mais
    
    Pra fingir que vivo bem
    Não conto a ninguém
    Este meu mal sem fim
    Mas a calma não me vem
    E eu mesmo não sei
    O que será de mim
    
    Eu faço por não chorar
    Para não demonstrar
    Minha grande aflição
    Só pra me desabafar
    Não quero engana
    Meu pobre coração

Ou de Não Digas:

    Oh! Não digas
    Que ainda eu não te esqueci
    Quem não sabe há de pensar
    Que eu ando atrás de ti
    
    E a nossa amizade teve fim
    Tu bem sabes que fui eu
    Mesmo quem quis
    Eu não sei por que é que mentes tanto assim
    Pois mentira não se diz
    
    Eu ainda fico triste a lembrar
    Apesar de ter deixado já de ti
    Lamentando aquele dia de azar
    Em que eu te conheci

Ou ainda de Deus Sabe o Que Faz, todos sambas que aparecerão em disco assinados por Ismael Silva e Francisco Alves. O nome de Noel, só na partitura.

    Tu sendo infeliz como se vê
    Bancas tanto chiquê
    Que a mim até já faz horror
    Quanto mais se tivesses valor
    Não tens e nem terás
    Deus sabe o que faz
    
    O chiquê é feio pra quem pode ter
    Quanto mais pra quem não tem nada de seu
    Ai de quem não sabe se reconhecer
    Nunca vi um gênio igual ao teu
    
    Mas o mundo nos ensina a viver
    Tudo isso com o tempo há de ter fim
    Porque mesmo tu tens de reconhecer
    Que nunca se deve ser assim

Parceiros. Graças ao Pavão e a Francisco Alves. Não tivesse a voz do cantor outros méritos, bastaria este, de ter proposto, ainda que em nome da esperteza, a Noel Rosa:

— Que tal se juntar a nós?

Nota dos Autores

As musicografias até aqui levantadas, inclusive a partir de informações do próprio Ismael Silva, fornecidas em entrevistas diversas de 1954 até sua morte em 1978, nos dão conta de apenas nove composições suas de parceria com Noel: Para Me Livrar do Mal; Adeus; Gosto, Mas Não É Muito; Uma Jura Que Fiz; Assim, Sim; Quem Não Quer Sou Eu; Ando Cismado; A Razão Dá-se a Quem Tem e Boa Viagem. Baseados em dados que poderão ser encontrados no apêndice sobre a obra de Noel Rosa no final do volume, os autores relacionam mais nove: Escola de Malandro; Já Sei Que Tens Um Novo Amor; Nunca Dei a Perceber; Não Digas; Deus Sabe o Que Faz; Dona do Lugar; Isso Não se Faz; É Peso e Sorrindo Sempre, esta em parceria também com Gradim e Francisco Alves.

Transcrito de:

Noel Rosa, Uma Biografia© 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.

Imagens:

Ismael Silva, Wikipédia / Ismael Silva, anos 1970, Folha Press.