Leitura Complementar: NOEL ROSA_o8 / Subindo o Morro
Capítulo 20 SUBINDO O MORRO
Canuto foi o primeiro. Um negro bem comprido, magro, a fala mansa enfeitada de gírias. Ninguém podia precisar como ou quando apareceu em Vila Isabel. No começo pensava-se ter vindo do morro dos Macacos, mas hoje já se sabe que mora mesmo no Salgueiro, lugar a que nenhum dos tangarás se atreve a subir para o que quer que seja. Nenhum não é exato. Noel sobe ao Salgueiro. E também ao morro dos Macacos. E a outros mais, Favela, Saúde, Mangueira. Sempre movido por bom motivo: samba.
Embora os tangarás tenham descoberto Canuto praticamente ao mesmo tempo, embora partisse de Almirante a ideia de levá-lo com seu tamborim para um estúdio de gravação e embora fosse João de Barro o primeiro a tornar-se seu parceiro, de todos é Noel o mais ligado a ele. E um dos que mais apreciam seu jeito de bater, não com a baqueta, mas com o dedo indicador, longo, esticado. Noel acha Canuto ainda melhor que o Manuel Anacleto, camarada que faz do tamborim o que quer, um dos primeiros que se conhecem no bairro a realizar malabarismos com o instrumento (Anacleto gosta, por exemplo, de rodopiar o tamborim na ponta do dedo como fazem alguns pandeiristas). Já Canuto prefere deixar para lá as figurações, limitando-se a fechar os olhos, enlevado, enquanto batuca. Quando do sucesso do Na Pavuna, as casas de música tocando o disco a todo instante, costumava postar-se à porta de uma delas. Aos curiosos que paravam para ouvir, apontava primeiro para o alto-falante de onde saía o som do seu tamborim e depois para si mesmo, como se dizendo: "Este aí sou eu!".
Foi mesmo o primeiro. O primeiro a aproximar o morro e sua música de um Noel desde cedo inquieto na busca daquele samba 'diferente' que o encantara. Já havia intuído ao tempo de Com Que Roupa?. Agora tem certeza: são estes negros, humildes, incultos, mas musicais até a alma, que criam sob o teto de zinco de seus barracos o melhor samba carioca. O mais rico harmonicamente, o de estruturas melódicas mais afinadas com o seu temperamento. Noel não é negro, não vive no morro, não pode dizer que seja pobre. Mas entende essa gente como se fizesse parte dela.
Por quê? Como explicar a afinidade que desde logo se fez entre ele e os compositores do morro? Nunca é demais lembrar que compositores de morro não são apenas os que efetivamente moram lá no alto, em casebres remotos, só atingíveis depois de se percorrerem caminhos angulosos riscados em barranco íngreme. Também são 'compositores de morro' os social e economicamente identificados com aqueles. E como eles parte de uma população pobre, negra ou mestiça, que se instalou nos pés de morro, ou margeando as linhas de trem, ou nos confins de um subúrbio carioca.
Ao longo de dois, três anos-chave em sua carreira, isto é, desde que conheceu o lustrador de móveis Canuto em meados de 1929, até se firmar como um cartaz do rádio e do disco já no começo de 1932, Noel vai subir muitas vezes o morro, beber em sua fonte, experimentar parcerias com seus compositores, aprender com eles. Sábia e humildemente. Isso enquanto os outros tangarás, guiados por Almirante, ainda pensam nos cocos e nas emboladas. É uma busca consciente a de Noel. Nestes dois, três anos, nenhum compositor da cidade, branco, remediado, instruído, com passagem inclusive pela universidade, será tão frequentemente parceiro de 'compositores do morro'. Ou o fará de mente e coração tão abertos. Claro, não se pode esquecer Francisco Alves, que muito antes de Noel — e de forma bem mais pragmática — andou indo aos morros atrás de samba. Garimpeiro infatigável, rastreador atento, Chico é um cantor a que a música brasileira vai dever, entre tanto mais, a descoberta e popularização dos compositores do Estácio e seus seguidores. Mas há uma diferença: o cantor famoso chega a estes sambistas, colhe a pedra bruta de suas criações, lapida-a com sua voz, embala-a em forma de disco, converte-a em sucesso. Faz negócio com eles. Pode ser seu 'sócio', mas não parceiro. Sua subida ao morro, sua busca, tem outro significado. Já a de Noel é sobretudo integradora, mais soma que troca, comunhão plena no ato de criar. Não fará tanto sucesso, mas será muito mais enriquecedora.
Esse tipo de parceria — de brancos cá de baixo com negros lá de cima — é por várias razões raro: classes sociais, filosofias de vida, preconceitos, tudo separa os dois mundos. É até difícil seus habitantes se cruzarem, vivendo em pontos tão opostos, frequentando restaurantes e botequins distintos, jamais indo às mesmas festas. Tomemos o exemplo de alguns dos melhores compositores brancos de hoje: Eduardo Souto, Ary Barroso, Joubert de Carvalho, Heckel Tavares, Augusto Vasseur, Gastão Lamounier, Freyre Júnior e mesmo Lamartine Babo e os outros tangarás. Como imaginar algum deles numa tendinha de morro a batucar caixa de fósforos no meio desses negros? Como pensar neles a escalar encostas enlameadas trajando os seus imaculados ternos de linho branco?
Mesmo a parceria de João de Barro com Canuto, pioneira na união dos dois mundos, foi um episódio isolado. Depois de Não Quero Amor Nem Carinho e das segundas partes de João de Barro para Vou à Penha Rasgado, a dupla se desfez. A de Canuto com Noel Rosa talvez venha a durar muito, se muito eles viverem.
Canuto, Deocleciano da Silva Paranhos, já tem os pulmões fracos em fins de 1931. Mas é mesmo de amor que mais padece. Bebe muito, vive pelos botequins a falar da mulher que o trocou por outro. Uma noite, encorajado pelo álcool e pelo ciúme, confiando ainda numa força que já não tem (foi lutador de boxe há alguns anos, mas hoje só lhe sobram, além da respeitável altura, cinquenta e poucos quilos de fragilidade), desafia para briga o malandro que lhe roubou a mulher. É encontrado pela manhã gemendo num canto de calçada, o corpo coberto de sangue. O rival, mais ágil, esfaqueou-o no peito e na barriga. Canuto passa dois meses no hospital. Sai de lá mais magro ainda, mas cheio de inspiração. E disposto a receber de volta o ex-amor, como diz em Esquecer e Perdoar, samba seu com Noel:
Sem eu merecer
Eu te quero perdoar
E te esquecer
(Vai por mim)
Nem posso viver assim
Quero a tua proteção
Um belo samba que a voz sentida de Canuto valoriza ainda mais na gravação. Precioso exemplo de como já em 1931 Noel está perfeitamente sintonizado com os sons lá de cima, o morro e a cidade — através dele e Canuto se dando as mãos, a música e o coração a aproximá-los. Os dois fazem juntos outro samba, Cadê Trabalho?, no qual a filosofia da malandragem, da aversão ao batente, é revisitada pelo humor de Noel. O samba, porém, jamais será gravado.
Num terceiro samba, Já Não Posso Mais, Noel e Canuto terão dois colaboradores: Puruca, outro negro do Salgueiro que faz ponto nas esquinas de Vila Isabel, e Almirante, que será seu intérprete em disco:
Canuto não vai viver muito. Morrerá a 27 de novembro de 1932, antes de chegar aos trinta e com um punhado de sambas por fazer.
— Se tivesse durado um pouco mais — admitirá Noel aos amigos no Ponto de 100 Réis — ia ser o melhor de todos nós.
Talvez. Mas Canuto viveu o bastante para apresentar Noel a gente do samba como ele, compositores do morro nos quais os outros tangarás não parecem tão interessados. Sambistas como Antenor Santíssimo de Araújo, o Gargalhada do Salgueiro. Futuro diretor de harmonia da Escola de Samba Azul e Branco, Gargalhada é respeitadíssimo não só no seu morro, mas em todo lugar. Um líder, homem de coragem. Em 1934, quando um italiano sabido compra boa parte do Salgueiro, mandando lá a polícia com ordem de despejo para dezenas de famílias, Gargalhada vai se plantar bem no começo da subida. Ficará na história sua ameaça aos policiais:
— Se quiserem subir, subam. Mas pra cada barraco que vocês botarem abaixo, é um de vocês que a gente derruba também!
Os policiais farão meia-volta, o italiano vai desistir do morro.
Quando Canuto apresenta Noel a Gargalhada, este ainda está meio queimado com o pessoal de Vila Isabel, especialmente a turma que desfila pelo Faz Vergonha. Num desses carnavais, o bloco saiu cantando:
Favela, Estácio de Sá
Vamos acordar o Salgueiro
Que o mundo inteiro
Quer ouvir o seu cantar
Gargalhada fez um samba em resposta:
Mas o Salgueiro não está adormecido...
Quem é a Vila para nos acordar?
Briguinhas de samba, nada para se levar a sério. E das quais Noel não participa, ele que respeita tanto o Salgueiro que lhe dedicará, além dos geniais versos de Quem Dá Mais?, pelo menos mais duas citações em letra de samba. O que conta é que Gargalhada, até sua morte em 1941, também de tuberculose, será uma das legendas maiores do seu morro. Praticamente desconhecido dos rapazes de Vila Isabel desta época. Mas não de Noel, que será parceiro dele em Eu Agora Fiquei Mal. Canuto, amigo e padrinho da dupla, é quem o gravará.
*
Ao que parece, as propostas de parceria partem quase sempre de Noel. Pelo menos no começo de seu relacionamento com os sambistas de morro, aqueles que ainda não desceram como Canuto. Ou como Puruca, ritmista completo que toca tamborim, cuíca, reco-reco, ganzá e um surdo que ele mesmo construiu adaptando couro à boca de uma barrica conseguida num armazém da Praça 7. Noel vai atrás deles, procura conhecê-los, ouvir o que fazem. Viaja a bordo do samba, do Boulevard ao Salgueiro, do Salgueiro à Mangueira.
O primeiro contato com Angenor de Oliveira, o Cartola, se dá entre dois tragos no Café e Bilhares Maracanã, mais conhecido como Café da Uma Hora (nestes tempos em que a maior parte da cidade dorme cedo, não são muitos os botequins abertos até tão tarde). Situado no 476 da Rua São Francisco Xavier, em frente ao rio Joana e a um quarteirão do Largo do Maracanã, é local de muito movimento o dia todo. Quando o português José Martins o inaugurou em 1927, nem podia imaginar que seria um ponto tão importante na geografia da música popular carioca. O centro de um território que engloba Vila Isabel, Mangueira e as Ruas Dona Zulmira e Santa Luíza, aquelas das famosas batalhas de confete. Pois as mesas deste botequim — doze de café, cinco de sinuca — são frequentadas por compositores, cantores, instrumentistas, sambistas de morro, toda uma freguesia musical. É ali que Francisco Alves fecha muitos de seus negócios (e guarda nas mãos de seu Zé o velho violão). Um botequim onde se encontram os irmãos Mário e João Petra de Barros, Paulo e Luís Barbosa, os rapazes do Ponto de 100 Réis (Noel entre eles), Benedito Lacerda, os foliões do Faz Vergonha, Lamartine Babo, um ou outro egresso do Estácio, os salgueirenses Canuto e Puruca, Kalua, Castro Barbosa e tantos outros. E muito especialmente os bambas que vêm da Mangueira, o Massu, Carlos Cachaça, Zé Com Fome, Ruço da Amélia, Mestre Waldemiro, Aloísio Dias, Maciste, Saturnino Gonçalves, os novos, os mais antigos. E Cartola.
(O pessoal da velha guarda da Mangueira refere-se hoje ao Café da Uma Hora como o Bar do Alberto. Ao se aposentar em 1942, José Martins passaria a administração da casa ao filho Alberto Abrantes Martins e ao sobrinho e genro Lourenço de Abrantes. Alberto desde garoto trabalhava ali. Simpático, comunicativo, muito amigo da turma da música, o botequim acabaria entrando para a história com o seu nome.)
A ligação entre Cartola e Noel não se vai restringir a encontros fortuitos e papos de vez em quando no café de José Martins. Um dia Noel entra na Rua 8 de Dezembro, desce a ladeira, atravessa a linha do trem e vai procurar Cartola no seu barraco perdido no meio de uma subida estreita. Mostra seus sambas a ele, ouve o que o compositor da Mangueira tem guardado. Desde este dia, ficam amigos.
Em 1935, quando o jornal A Nação promover o concurso 'Qual será o maior compositor das nossas escolas de samba?' e Noel for convidado a dar seu voto, mais que isso ele fará quase um discurso:
"Cartola merece uma campanha em torno de seu nome. Dos compositores espontâneos, ninguém merece mais do que ele. Tem dado ao público não pequeno número de verdadeiras obras-primas. Quem não conhece Divina Dama e Fita Meus Olhos? Não me poderia passar desapercebido (sic) o nome de Cartola num concurso entre os melhores sambistas. A sua escola de samba, a quem empresta toda a sua colaboração, está no dever de ampará-lo. Tantas vezes tem concorrido para o renome alcançado por sua escola que não se explica esta o desamparar justamente quando chegou a sua vez de aparecer. Dou por isso a Cartola o meu voto sincero" (A Nação, 21 de abril de 1935).
O amparo que Noel vai reclamar é o que a Mangueira negará a seu compositor. Afinal, quando já estiverem computados mais de 6 mil votos, dados através de um cupão que o jornal publicará diariamente, Cartola nem aparecerá na relação dos 23 mais votados. Enquanto Madureira prestigiará o seu Paulo da Portela (líder e virtual vencedor do concurso), Ramos o seu Armando Marçal, Salgueiro os seus Gargalhada, Puruca e Pedro Barcellos, Gamboa o seu Raul Marques, a própria Mangueira o seu Maciste, Cartola, o melhor dos "compositores espontâneos", nem será lembrado. Noel, depois do protesto, vai pôr seu voto na urna de A Nação.
Mas o fato justificará um discurso? Não estará Noel Rosa exagerando? Será que esse tal de Angenor de Oliveira é tão bom quanto ele diz? Ou é apenas um bom amigo sambista que Noel vai querer promover?
Os dois se tornam mesmo grandes amigos. Destes cuja estima mútua o tempo só faz intensificar. São dois moços simples (Cartola dois anos mais velho que Noel). Sem nove-horas, sem qualquer artifício no jeito de ser. A simplicidade do sambista da Mangueira chega a ser comovente. Delicado nas palavras, nos gestos, em tudo que faz, inclusive os sambas. Modesto, incapaz de altear a voz. Sempre trabalhou — pedreiro, biscateiro, vários ofícios — e no entanto jamais perdeu a calma para protestar contra os policiais que o chamavam de vagabundo e o maltratavam pelo crime de fazer samba. É um dos heroicos pioneiros que resistiram com bravura à intolerância das autoridades para com os sambistas. Simplicidade e modéstia que jamais perderá, mesmo que venha a ser alguém, quem sabe um compositor admirado, amado, famoso?
Nasceu no Catete, mas mora desde menino na Mangueira. E de lá não pretende sair tão cedo. No dia em que sua família mudou-se do morro, bateu pé: "Vocês vão, eu fico!". E ficou mesmo. Morando neste barraco de sala e cozinha em que Noel, cada vez mais, vai procurá-lo.
Cartola ainda não havia chegado aos dezoito anos quando caiu de cama muito doente, precisando de repouso, muita comida e bons tratos. "Doença de rapaz", disseram. Deolinda, vizinha do barraco ao lado, soube e foi visitá-lo: "Pode deixar, menino, que eu cuido de você". No princípio, em nome da solidariedade, lei sagrada a que os moradores do morro obedecem religiosamente. Depois, foi tomando gosto, aquele jeitinho de Cartola enroscando-se nela, enfeitiçando-a. Até que uma noite o marido de Deolinda chegou em casa, cansado do trabalho, e a encontrou com a trouxa feita e a filha Ruth, de dois anos, no colo. Foi franca:
— Estou me mudando pro barraco do lado.
— O quê?
— Vou morar com o Cartola.
O homem trincou os dentes. Pensou primeiro em esganar Deolinda, mas os vizinhos foram chegando, atraídos pelos xingamentos dele, embora sempre olhando ao longe, como aquele ditado que também é lei sagrada: "Briga de marido e mulher é deles lá...". O homem mudou de ideia e achou melhor resolver a questão com Cartola. Saiu por uma porta e entrou por outra, encontrando o vizinho deitado, muito magro, ainda fraco. Mesmo assim, explodiu:
— Roubando minha mulher, seu aprontador. Vim te arrebentar!
— Mas tu não vê que eu tô morrendo?
O marido de Deolinda recuou. Pensou bem, convenceu-se de que não era direito bater num garoto esquelético, moribundo. Deixou a surra para quando Cartola ficasse bom. Só que, quando isso aconteceu, a raiva já havia passado. E Deolinda já estava definitivamente instalada no barraco de quarto e cozinha, com a menina que Cartola criará como sua, filhos que ela terá um dia chamando-o, orgulhosos, de avô.
Deolinda é mulher como poucas. Noel terá oportunidade de constatar isso muitas vezes. Pois a partir daquele primeiro encontro com Cartola no café do Maracanã — e mais ainda do dia em que o procurou lá em cima — o barraco passa a ser uma espécie de sua segunda casa. Em alguns momentos, primeira. Nos anos que se seguirão, de agora até as vésperas de sua morte, Noel fará daquele humilde casebre, perdido entre tantos na Mangueira, o seu refúgio. Quando as coisas não estiverem bem na cidade, os dissabores, as ingratidões, os cansaços, os tédios castigando-o por dentro, é para ali que correrá. Um refúgio tranquilo, entre samba, cerveja e as bênçãos de Deolinda.
Noel bebe duas vezes mais que Cartola. Será sempre assim. De vez em quando, já meio alto, esperará o amigo voltar do trabalho, sentado no corrimão de ferro da ponte sobre a linha do trem. Cartola chega e os dois se cumprimentam, sobem juntos. O cansaço e a bebida não raro derrubam Noel.
— Deolinda! — grita Cartola para a mulher.
Nessas horas é ela quem cuida de Noel como se fosse uma criança de colo. Faz uma fogueira de lenha no quintal, esquenta água numa lata de banha, tira a roupa dele, ergue-o no colo com seus braços fortes e o coloca dentro de uma bacia onde vai jogando, pacientemente, cuias e mais cuias de água quente. Esfrega-o com bucha, enxuga-o, veste-lhe as roupas de Cartola, o pijaminha velho mas limpo de dar gosto. Depois, prepara-lhe um caldo forte, osso de tutano fervido com tomate e cebola, às vezes engrossado com talharim. Que ela lhe dá na boca, devagarinho, enquanto Cartola observa com olhos de aprovação.
— Este caldo levanta até caixa d'água.
Deolinda cinco, seis anos mais velha que os dois, é o anjo da guarda da dupla. Alimenta e cura suas bebedeiras, trata-os como a duas crianças, perdoa-lhes as traquinagens.
Deolinda da Conceição deixaria Cartola viúvo em 1946. Foi logo após a sua morte que, inconformado, ele fez o samba Sim, de parceria com Oswaldo Martins:
Mas eu não fui feliz
E com raiva para os céus
Os braços levantei
Os que conheceram Deolinda a descrevem como "uma santa". Neuma Gonçalves da Silva, por exemplo, conta: "Uma mãe para o Noel. Depois de dar banho nele, num daqueles porres, punha-lhe polvilho. Pra não assar. Sabe como é, ele bebia de se urinar todo".
O marido que ela trocou por Cartola chamava-se Astolpho e, no fim da vida, doente, não tendo para onde ir, foi recolhido pelo próprio Cartola, já então casado com Euzébia Silva do Nascimento, a Zica, que por sinal tinha sido muito amiga de Deolinda.)
*
Cartola e Noel costumam sair juntos para longas noitadas. Como no fim de tarde em que o Zé Maria aparece no Café da Uma Hora e lá encontra os dois conversando com Carlos Cachaça, parceiro e amigo de fé de Cartola. Zé Maria veio numa baratinha nova, bonita, reluzente, de um de seus fregueses (é mecânico de gente graúda, inclusive Francisco Alves). Geralmente é assim: entra no carro que o cliente lhe deixou para reparo e sai por aí fazendo farol. Começa a anoitecer e ele convida os três para uma farrinha. Mandam Seu Zé descer dois engradados de cerveja e colocam na mala do carro.
— Agora vamos até o Buraco Quente arranjar umas companhias — propõe o Maria.
No Buraco Quente, um dos pontos de maior movimento na Mangueira, só acham duas pequenas interessadas em fazer-lhes companhia: Nena e Genoveva. Apertam-se os seis na baratinha, tomam o caminho da Vista Chinesa e só voltam depois das cinco da manhã, as garrafas vazias, as meninas cansadas. Cartola nem vai trabalhar. Noel dorme no seu barraco.
Eventualmente os passeios se fazem no Pavão, o tal Chevrolet de dois cilindros, cor de azeitona, que ele comprou de Francisco Alves, para ser pago em composições (o cantor tem um caderno de capa dura, tipo conta de armazém, onde vai anotar "primeira parte do samba tal, tantos mil réis", "segunda desta ou daquela música, outros tantos mil réis", "correção e uma letra de fulano, mais tanto...", até que se complete o total). No dia em que fecham negócio, Noel vai à Mangueira e convida Cartola e outros amigos para uma volta pelo Centro. Noel no volante, entram pela Rua Luís de Camões e chegam ao Largo de São Francisco. Noel tem uma ideia:
A Rua do Ouvidor! Vou entrar nela.
— Tá maluco? Ali não passa carro.
— O meu passa.
E assim faz, às quatro da tarde, a rua estreita cheia de gente espantada com a ousadia do Pavão. Na esquina de Uruguaiana, um guarda:
— Para! Para!
Noel pisa no freio.
— Ficou doido, rapaz?
— Por que, seu guarda?
— Esta rua... É proibido passar carro.
— Mas que rua é esta?
— Ouvidor. Não sabe ler? — pergunta apontando para a placa.
— Puxa, seu guarda, me desculpe! Como é que pude me enganar?
— Está bem, pode ir. Mas não me repita, ouviu?
O Pavão se vai, Noel às gargalhadas, os outros sérios.
É Cartola quem o leva para os ensaios da escola de samba. Apresenta-o ao pessoal do morro, faz com que se sinta em casa, o Buraco Quente sendo como o Boulevard. É ali que, transpirando cerveja, uma noite Noel cumpre sua breve e patética carreira de mestre-sala. Leque na mão, improvisa passos que a bebedeira transforma em risíveis piruetas. E a elegante Georgina fazendo força para acompanhá-lo como porta-bandeira. É Cartola, ainda, quem o aproxima de Heitor Villa-Lobos, o grande compositor que acaba de voltar de Paris. O maestro — na ânsia de desencavar entre compositores populares os mais espontâneos, ou mesmo os mais primitivos, uma riqueza musical inexplorada — acabou parando em Mangueira. Ou melhor, na casa de dona Ephigênia, no mesmo Buraco Quente. Cabeleira farta, charuto fumegante, foi logo perguntando:
— A senhora sabe onde posso encontrar um moço chamado Cartola?
Desde 1932 à frente da Superintendência da Educação Musical e Artística (SEMA), Villa-Lobos levará o canto orfeônico às escolas públicas do Rio, ensinando a meninos e meninas os hinos, canções patrióticas, cantigas de roda para serem cantados a duas, três vozes. É sua crença que, a médio prazo, a partir dessas experiências corais, a boa música terá se massificado no Brasil, nosso povo conhecendo-a e apreciando-a melhor. O maestro é um sonhador. Quer que o erudito e o popular se entrelacem.
Vem daí sua ligação com Cartola, o próprio Villa-Lobos indo à Mangueira para reger uma centena de crianças do morro no Canto do Pajé e pedindo sua ajuda como "diretor de harmonia". Conversam, ficam camaradas. E embora a cidade vá levar muito tempo até saber exatamente quem é esse tal de Cartola que Francisco Alves descobriu, Villa-Lobos percebe-o logo. Vai admirar para sempre esse metodista intuitivo, esse poeta de poucas letras, mas abençoado. Admiração que o maestro tentará repartir com outros músicos eruditos, nossos ou do estrangeiro.
Entre os músicos que Villa-Lobos levaria para conhecer Cartola e os sambistas da Mangueira estariam Leopold Stokowski (1940) e Aaron Copland (1941). Cartola, aliás, se juntaria a Pixinguinha, João da Bahiana, Donga, Jararaca, Ratinho, Luís Americano e os mangueirenses Zé Com Fome e Zé Espinguela na histórica gravação de música popular brasileira realizada sob a supervisão de Stokowski a bordo do navio Uruguay. Editados nos Estados Unidos pela Columbia em dois álbuns de quatro discos cada, sob o título Native Brazilian Music, os fonogramas só seriam lançados comercialmente no Brasil em 1987.
Cartola ganha de Villa-Lobos um diapasão de boca. Aprende com ele a usá-lo, convencido mesmo de que pode tornar mais afinado e harmonioso o coro das pastoras da Mangueira. Noel chega no morro e encontra o amigo compenetrado à frente das meninas, todas elas arrumadinhas, em fileira, e o sambista soprando o seu diapasão.
— Foi o maestro Villa-Lobos que me deu — explica orgulhoso.
É mesmo Cartola quem aproxima Noel do compositor. E a pedido deste o sambista de Vila Isabel passa a ajudar o da Mangueira a ensaiar o coral do morro. Crianças deste tempo jamais se esquecerão dele, magro, os dois indicadores levantados, regendo a garotada, ensinando-lhes o Hino Nacional, três vozes. Enérgico, exigente, zangando com este ou aquele, mas só de mentirinha. Nada de gritos ou de nomes feios. (Depoimento de Neuma Gonçalves da Silva aos autores.)
— Traz aquela tua gaitinha, Cartola!
E Noel aproveita para afinar o violão pelo diapasão de Villa-Lobos.
Os moradores do morro da Mangueira que testemunham hoje a amizade entre Cartola e Noel se lembrarão sempre dos dois sentados à porta do barraco, cada qual com seu violão, criando refrãos, improvisando versos, fazendo sambas horas a fio. Por vezes, começam às sete, oito da noite, e vão até quase o sol despontar. Não é só a amizade, o carinho que recebe aqui, a solidariedade dessa gente, que atrai Noel à Mangueira. Há também a música. Este é um morro que amanhece e adormece cantando, a voz morna de um sambista se espraiando pelos ares, entrando em todos os barracos, contagiando as pessoas, tornando suas almas mais leves. Geralmente os cá de baixo, contidos pelo medo, não ultrapassam os limites da Visconde de Niterói. Contam-se tantas histórias — muitas verdadeiras, outras não — de malandros, valentes, homens fora-da-lei, assaltos, brigas de sangue, que poucos se atrevem a subir. Mas não é bem assim. Noel sabe que não. Uma gente banhada em música como esta não pode ser ruim. E de fato não é.
É de samba e esperança que vive a Mangueira (os da cidade são incapazes de compreender que o pessoal do morro possa ser feliz com tão pouco). Samba e esperança o ano todo. Canta-se de tudo por lá, o amor, a saudade, o fingimento, a pobreza, a ingratidão, a morte. É curioso como, por esta época, os compositores escolhem temas de tempos em tempos e produzem uma infinidade de sambas em torno deles. Uma hora é o beijo:
Beijos, para satisfazer os meus
Beijos, mesmo sendo de falsidade
Se você me negar, morrerei de saudade.
Outra, a morte:
Belíssimos sambas estes de Cartola. Mas, quando o tema em voga é rir, pode-se dizer que cada compositor do morro cria pelo menos um apreciável exemplar. Como este de José Gonçalves, o Zé Com Fome:
Pode rir de mim, pode rir de mim...
Lauro dos Santos, o Gradim, fértil como sempre, fará um punhado. Tristes, alegres, cheios de orgulho, inglórios. Um deles:
Ri, pode sorrir
Meu coração por você tanto chora
Outro, obra-prima que Francisco Alves e Mário Reis cantam magnificamente, embora com pequenas alterações que mudam o sentido da letra:
Deste alguém que tanto chora
Francisco Alves e Mário Reis cantam:
Cartola não fica atrás. Compõe uma primeira parte, de letra rudimentar mas melodia pungente, para a qual Noel fará as segundas. O resultado é este Rir, também gravado por Chico e Mário:
*
A autoria de Rir é um desafio aos pesquisadores. No selo do disco e na partitura impressa, editada por Irmãos Vitale, é atribuída a um certo José Oliveira. Mas o único em Mangueira — e não há dúvidas de que o samba é de lá — que tinha este nome era o Zé Criança, que morreu em 1939 sem jamais ter reivindicado o samba para si. Carlos Cachaça acha que o autor é o Zé Com Fome. Fernando Pimenta, grande memória do morro, garante que é o Gradim. Mas Harmonia, jornal de modinhas que Noel e Hélio Rosa editaram por curto período em 1932, é claro. Publicou a letra sob os seguintes créditos: coro de Agenor (sic) de Oliveira, versos de Francisco Alves e Noel Rosa. Para quem acredita em "prova de estilo" — participação de Chico à parte — como é possível duvidar de que Rir seja mesmo de Cartola e Noel?
Francisco Alves — sempre ele — foi o primeiro a levar Cartola para os meios musicais da cidade. Familiarizado com a Mangueira, desde que trabalhava na fábrica de chapéus, bateu no seu barraco, comprou-lhe sambas, gravou o antológico Divina Dama. E ainda levou Mário Reis para conhecê-lo, sugerindo que o 'doutor em samba' também investisse no talento de Cartola (dias depois, tendo como intermediário o Clovis Miguelão, pois ele mesmo não tem coragem de ir ao morro, Mário compraria o Que Infeliz Sorte!, que no entanto daria para Francisco Alves gravar).
Uma mina. Chico nunca duvidou disso. Via a Mangueira desfilar com uma beleza de samba, música e letra nada devendo às melhores produções do Estácio, e podia apostar: ou era de Gradim, ou era de Cartola. Como o refrão com que a escola de samba desfila em 1932:
Oh, minha flor, tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado
Receoso que tivesses me enganado
(Eu não durmo sossegado)
Francisco Alves fica entusiasmado, pensa em gravá-lo e vai atrás de Cartola para que ele faça a segunda parte. Neste começo de década a Mangueira costuma desfilar com três sambas, ou melhor, três refrãos, já que os versos das segundas partes ficam por conta dos improvisadores: Alfaiate, Balança, Turituré, Antonico, Zé Criança, Gradim, Cartola. Assim como Noel, Lauro Boamorte e Paulo Anacleto no Faz Vergonha. O primeiro refrão da Mangueira é para entrar no desfile. Como este:
O segundo é para passar em frente ao palanque. O terceiro, para as despedidas. O Não Faz, Amor é um deles. Mas Francisco Alves encontra Cartola de cama, febre alta, uma gripe de moer o corpo, e quase desiste da gravação. Até que se lembra de Noel. Pede-lhe que complete o samba:
Talvez o melhor exemplo da perfeita comunhão de estilos entre os dois, a primeira parte de Cartola apoiada na força da melodia, a segunda de Noel na construção dos versos ("Amor é bem fácil de achar, o que acho mais difícil é saber amar..."), mas Cartola só se inteira da parceria depois que Não Faz, Amor já está gravado, tocando no rádio, ganhando popularidade. Fica sem entender.
— Me diz uma coisa, Chico: quem fez as segundas?
— O Noel.
— E por que tu não pôs o nome dele no disco?
— Ele não quis.
Cartola procura Noel no chalé.
— Não gostei do Chico não ter posto teu nome no disco. Sujeira. Afinal, somos parceiros.
— Não somos parceiros, Cartola. Somos amigos.
— Mas você fez as segundas.
— Deixa pra lá. Hoje eu faço por você, amanhã você faz por mim.
São mesmo amigos. E admiradores um do outro. Para além da vida. Pois enquanto Noel morrerá amando os sambas de Cartola, este, daqui a muitos anos — quando o parceiro já tiver partido e à porta do seu barraco não houver mais que a lembrança daquele tipo miúdo, magro, queixo torto, saltando do violão para o copo de cerveja e deste para o violão, mas criando com facilidade versos de profunda sabedoria — há de reverenciá-lo num samba cheio de saudade:
Gradim — o tal que se alterna com Cartola na feitura dos melhores refrãos da escola — vive na Mangueira, mas o pessoal do morro diz que ele é muito mais um cigano do que propriamente de lá. Anda errando por aí, de toca em toca, de esquina em esquina. Vive de vender samba, como este que passa às mãos de Amaro Silva por alguns mil réis:
Eu não quero mais o seu amor...
Ou este que lhe comprou Príncipe Pretinho:
Sambas vendidos por quaisquer trocados a muitos fregueses, o mais habitual deles o Thi-belo, que por sua vez costuma revendê-los em bases mais vantajosas. Gradim nem se importa se seu nome sai ou não no disco, na parte de piano ou nos jornais de modinha. Magro, cerca de um metro e oitenta, trigueiro, o queixo protuberante, bom de conversa, bom de futebol. Joga na ponta-esquerda do Ponte dos Marinheiros Futebol Clube, onde já formou ala com Leônidas da Silva, este mesmo crioulinho endiabrado que com menos de vinte anos já é craque da Seleção Brasileira. Gradim — cujo verdadeiro nome, como já vimos, é Lauro dos Santos — inclui-se entre os muitos futebolistas desta terra 'rebatizados' com o nome de um jogador uruguaio que andou exibindo seus dribles por aqui.
(Isabelino Gradim, grande meia-esquerda negro do Peñarol de Montevidéu e da Seleção Uruguaia. Exímio driblador. Fez nome por aqui durante o Campeonato Sul Americano de 1919 disputado no Estádio do Fluminense. Recorda Mário Filho em O Negro no Futebol Brasileiro (segunda edição, página 170): "Foi uma praga de Gradins pelo Brasil afora. Todo preto que jogava um pouco de futebol virava um Gradim".)
Está longe, porém, de ser um atleta: é mais um que vai morrer moço com os pulmões estragados. E sem que a cidade reconheça o talento que tem, muitos o considerando um dos dois ou três maiores compositores que já pisaram em Mangueira. O outro ou um dos outros sendo, evidentemente, Cartola.
Mas Noel conhece Gradim o bastante para fazerem juntos pelo menos dois sambas. Um deles está dentro do tema rir, intitula-se Sorrindo Sempre e também começou como um dos refrãos do desfile de 1932:
É um samba muito bom, ao contrário do que pode sugerir a letra lida sem a melodia. Outro dos muitos problemas de autoria da música popular desta época: no disco, apenas o nome de Lauro dos Santos; na partitura impressa, além dos nomes de Lauro e Noel, entram também os de Francisco Alves e Ismael Silva. Quem terá feito o quê? Já Quero Falar Com Você é mesmo só de Gradim e Noel, embora mais uma vez o nome deste não esteja no selo do disco. A letra é bem estruturada — certamente de Noel — em cima de uma imaginária conversa telefônica durante a qual o amor e as quatro operações se misturam:
Depois da repetição do coro, a gravação de João Petra de Barros termina com a telefonista dizendo simplesmente: "Não responde!". Noel e Gradim poderiam ter feito mais juntos, mas o cigano da Mangueira e o tangará desgarrado de Vila Isabel não se encontraram tanto quanto deviam.
Sempre querendo conhecer o que produzem estes sambistas de morro, trocar informações com eles, somar experiências, Noel segue peregrinando. Salgueiro, Mangueira, outros morros. Faz expedições aos subúrbios, ouvidos atentos. Conhece Ernani Silva, o Sete, lá pelas bandas de Ramos. Outro cigano, sempre rodopiando, morando hoje na Senador Eusébio, amanhã para além de Irajá. Tem dois vícios: samba e baralho. Não recusa um joguinho de ronda e graças a isso vai perder a vida muito moço, 27, 28 anos, adversários desconfiados jogando-o lá do alto da Favela no asfalto da Bento Ribeiro. Um negro simpático, risonho, com muito prestígio no meio do samba (por esta época é tão considerado quanto alguns dos melhores nomes do Estácio). Também não chegará a ter na cidade o reconhecimento que merece no morro. Um sambista capaz de um coro assim:
Para o qual Noel vai escrever duas excelentes segundas partes, a simplicidade contida na ideia do Sete ganhando, sem que o tema seja abandonado, um cinzelado acabamento. O samba chama-se Primeiro Amor:
Noel Rosa será de fato o único compositor da cidade a fazer de sua associação com esses sambistas uma rotina nos dias de agora. Conhece num café da Lapa o marceneiro Manuel Ferreira, amigo de Baiaco, Brancura, Zé Pretinho, malandros que gostam de samba. E com ele consuma vários trabalhos, dos quais apenas um vai ser gravado: Só Pra Contrariar. Para não fugir à regra, a proposta de parceria parte de Noel. Depois de ouvir o coro feito por Manuel Ferreira, perguntou-lhe:
— Você me deixa botar uma segunda nisso?
Tão surpreso e contente o sambista ficou que nem quis dizer a Noel que já tinha feito a segunda parte. O produto final é este:
Mas nem todos são desconhecidos como Manuel Ferreira e Ernani Silva, Gradim ou mesmo Cartola. A 'compositores de morro' já consagrados, sejam de onde forem, Noel se associará em diferentes épocas. É o caso de Alcebíades Barcellos, o grande Bide do Estácio, emérito ritmista e compositor de primeira, autor de inúmeras obras-primas do samba carioca, em especial as que vem criando em dupla com Armando Marçal, outro negro de imenso talento. Com Noel, porém, Bide fará apenas Fui Louco, em cima do tema da regeneração em que nenhum dos dois acredita muito.
A idade vem chegando e é preciso
Se eu choro, meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia:
Maior desgosto do mundo!
Neste mundo ingrato e cruel
A idade vem chegando e é preciso
Se eu choro, meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia:
Maior desgosto do mundo!
A admiração é recíproca, um enriquecimento bilateral, os 'sambistas de morro' ensinando lições a Noel e este dando em troca o que tem de mais valioso: sua poesia. Assim como Noel sabe, está absolutamente certo de que estes negros têm mesmo nas mãos — ou no coração — uma mina de ouro, seu próprio brilho é reconhecido por eles. Por exemplo, Heitor dos Prazeres o considera "o mago da originalidade", adora sua bossa e seus breques (Diário Carioca, 10 de janeiro de 1933). João da Baiana, outro gigante, só que mais ligado à Cidade Nova, não ficou insensível à explosão do garoto em 1931 e jamais deixará de gostar do que faz: "Eu gosto muito dos versos de Noel Rosa. O seu Com Que Roupa? e o meu Cabide de Molambo fizeram-nos os sambistas da miséria".
Cabide de Molambo, de João da Baiana, diz:
Tenho a mania de andar engravatado
E é uma lata velha que me serve de cadeira
Nem todos manterão para o resto da vida suas opiniões entusiasmadas sobre o poeta de Vila Isabel. Ernesto dos Santos, o Donga, outro da turma da Cidade Nova, é uma das exceções. Depois de um elogio como este: "Há aqui na cidade um moço que pode desbancar muita gente: o Noel Rosa. Todas as suas produções são sempre recebidas com agrado" (De um jornal de 1933, guardado por Noel em seu álbum de recortes).
Depois também de fazer com o mesmo Noel o samba Não Há Castigo:
Se vais à Penha comigo
Tu tens que me dar vantagem
Vais pagar minha passagem
Carregar minha bagagem...
De subir a escadaria
Eu bem sei que tu não gostas
Mas juro que nesse dia
Vais me carregar nas costas
Depois ainda de serem parceiros em outro samba, Este Meio Não Serve:
Menina de família andar metida em certo meio
Já saíram do Sion
Vão tomar vinho chianti
Lá pras bandas do Leblon
Que andam sempre de má-fé
Fazem queixa à mãe da zinha
E ela diz: "Sei lá se é..."
Dá palpites numa roda
Papai tem dor de cabeça
Mas mamãe nem se incomoda
Depois de tudo isso, enfim, Donga mudará. Ainda vai acusar Noel de lhe plagiar um samba. E envelhecerá resmungando conceitos nada lisonjeiros sobre o antigo parceiro:
— Noel não entendia de samba coisa nenhuma. Nada. Nem tocar, nem coisa nenhuma!(Entrevista a Juvenal Portella, Nuno Veloso, Luiz Gleizer e Lygia Santos, esta, filha de Donga. Realizada provavelmente em fevereiro de 1973 com vistas a um especial para a Rádio Jornal do Brasil. O programa não chegou a ir ao ar, mas o depoimento gravado por Donga foi preservado pelo Arquivo Sonoro do Centro de Documentação do JB.)
Mas todos sabem que não é assim. Cartola principalmente. Seu coração e o de Noel batem no mesmo compasso. Como as almas do morro e da cidade para os que creem que o samba, a música, pode operar o milagre de unir as pessoas Os habitantes da Mangueira jamais se esquecerão da parceria e amizade entre Cartola e Noel. Para sempre hão de recordar, comovidos, a figura dos dois, muito magros, sentados à porta do barraco deste negro de fala e gestos delicados, produzindo horas a fio dezenas e dezenas de sambas. Quase todos se perderão. Mas a alegria que Noel e Cartola sentem ao criá-los, a emoção que os envolve ao fazerem da vida fonte de música e poesia, isso ficará. Há coisas que o morro não esquece.
Transcrito de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagem: O jovem Cartola.