Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o8
— Vamos tomar um trem. Pro subúrbio. Isso, vamos passear de trem pelo subúrbio.
Onze da noite, os dois entram num trem da Leopoldina para viagens de ida e volta que só terminarão no outro dia, sol a pino. Lindaura dormindo sentada, (...) enquanto Noel puxa do bolso papel e lápis. Alheio aos balanços do trem, escreve. Acha esta ideia tão boa que passa a repeti-la todas as noites.
(...) Para ele, habituado a trocar o dia pela noite, não há problema. Mas para ela, que tem de chegar cedo ao trabalho, uma noite em claro é um suplício.
(...) A questão [agora é] acolher Lindaura. Será justo deixá-la ao relento, expulsa de casa pela mãe intransigente? De forma alguma. Mas para onde levá-la?
Enquanto a solução não é encontrada, Noel (...) conduz a 'noiva' para toda parte, programas de rádio, festas, botequins...
[Aninham-se] em muitos lugares, hotéis, casas de conhecidos, a pensão de mulheres da amiga de um malandro amigo, um canto alugado aqui e ali.
Ou este sobrado na Rua do Acre (...).
Os proprietários, não satisfeitos em locar todos os cômodos que se alinham de um lado e do outro de um corredor comprido e escuro, dividiram com tênues paredes de papelão os maiores, transformando cada um deles em dois. É numa dessas metades de quarto que [por longos meses] o casal se instala.
Enquanto Noel sai para não voltar, passando toda a noite fora, às vezes sumindo por dois ou três dias, Lindaura fica trancada com seus pensamentos (...). De dia ainda tem com quem conversar, as colegas de trabalho na lavanderia, uma ou outra pessoa conhecida que encontra em Vila Isabel. De noite, porém, só lhe resta rezar para que Noel volte o mais depressa possível.
A alma encantadora das ruas
Gosta de bandarrear por aí, mudando de ponto e destino a cada noite. Por isso, tanto pode estar num festival em Bangu como numa roda de choro na Cancela, pernoitando no barraco de Cartola como confabulando com Ismael Silva no Estácio. Pode ter arranjado nova namorada no mais longínquo dos subúrbios. Ou quem sabe, depois de vaguear pelas esquinas do Centro, ou de tomar dois ou três tragos num escondidinho da Lapa, não estará comprando amor barato numa pensão da Joaquim Silva ou da Conde de Lajes?
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Leitura Complementar: Subindo o Morro
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O subúrbio e a Lapa. Eis aí territórios muito especiais nas incansáveis peregrinações de Noel Rosa por sua cidade.
A Lapa. Não há boêmio que resista aos apelos deste bairro carioca. Noel Rosa não é exceção. Adora suas ruas estreitas, os sobrados suspeitos, os cabarés mal iluminados, os botequins sujos, locais onde bebem, cantam, amam, sofrem, mas acima de tudo vivem — tirando da noite o que de melhor a noite tem para dar — turbulentas populações de mulheres, rufiões, artistas, malandros, poetas, pederastas, mendigos, jogadores, policiais, viciados, grã-finos, políticos e o que mais se possa imaginar.
(...) A Lapa é um grande cenário, uma grande história. E Noel, um de seus personagens.
Ainda é um frequentador de bordéis. (...) Não é muito exigente com as mulheres que fazem amor por profissão. (...) Não é propriamente um malandro, desses que exploram mulheres e acreditam que só pancada as amacia. Seus sambas pregando esse tipo de malandragem não devem ser tomados ao pé da letra. São mais pose do que convicção, menos vontade de agir do que de cantar como malandro. Sempre foi assim. (...) Os anos passaram e a pose não mudou: de vez em quando Noel ainda se traja de malandro em seus sambas.
Como aquele, que grava em dupla com Ismael na Odeon, intitula-se Escola de Malandro e fala de uma doutrina que Noel Rosa jamais porá em prática:
Kid Pepe
(...) Alguns dos melhores amigos [de Noel] são malandros: jogadores, valentes, contraventores, desocupados, homens maus, gente que a polícia caça pela cidade. Indivíduos armados de navalha ou de cuja cintura costuma emergir, desafiadora, a coronha de um revólver. É amigo de Saturnino, aceita favores de Germano Augusto e Kid Pepe, faz camaradagem com Zé Pretinho, ri das malvadezas de Baiaco. Gosta de ouvir histórias trespassadas de valentia, brigas, desforras, tiros, navalhadas, mortes.
(...) Kid Pepe foi boxeador, está agora aposentado. Decidiu trocar as luvas pelo samba, mesmo que mal saiba assinar o nome, que tenha uma voz incapaz de entoar três notas sem desafinar, que possua ouvidos péssimos. (...)
É, confessadamente, comprador de samba.(...) Há quem diga que, quando não consegue comprar o que lhe interessa, arranca a parceria à força. (...) Mesmo assim, até este final de 1933 os socos não o ajudaram muito na luta para obter sucesso na música popular. Não fez nada que preste, nada que fosse notado. Até se tornar parceiro de Noel Rosa em O Orvalho Vem Caindo.
Zé Pretinho
Duas vezes mais valente do que Germano Augusto e Kid Pepe juntos, com coragem para encarar um Brancura ou alguém do mesmo tope, Zé Pretinho é do tipo de malandro que fascina Noel. Não só pelo destemor, mas especialmente por certos códigos de ética muito próprios, de uma nobreza que é preciso conhecer de perto para compreender. Kid e Germano, por exemplo, são capazes de tudo, grandes e pequenas torpezas. (...) trapaceiros baratos que tiram dinheiro de quem não tem e gostam de se impor pela força, pela ameaça. Principalmente Kid Pepe, que não faz segredo disso.
Zé Pretinho, não. Orgulha-se de ser um malandro maior. No jogo ou lá em que seja, só esvazia bolsos de quem os tem cheios, respeita mulheres, velhos, crianças, gente de família, não compra briga com os fracos. Prefere enfrentar policiais armados, malandros temidos como ele, valentes de verdade, a cometer uma covardia. Pelo menos é o que diz. E do que Zé Pretinho diz ninguém duvida.
(...) Em 1934, Zé Pretinho pode ser um exímio manuseador de baralhos, mas como sambista ainda é principiante. Fez uma ou outra coisa que andou mostrando sem sucesso para gente do meio musical. Sua amizade com Noel começou de encontros casuais em botequins da Praça Tiradentes. E não por causa de samba. Noel ouviu falar das façanhas de Zé Pretinho, de sua amizade com o temível Porela, do Salgueiro, ou com gente ainda mais assustadora, como o desassombrado Saturnino que tantos juram de morte (...). Noel gosta de ouvir essas histórias, mesmo as mais sangrentas.
1.
Depois do espetacular sucesso de O Orvalho Vem Caindo, Kid Pepe pôs-se a pensar em como seria vantajoso ter Noel Rosa como parceiro exclusivo. Em pouco tempo os sambas dos dois estariam correndo o país na voz dos melhores intérpretes, o ex-pugilista lançado como compositor, respeitado, admirado. Seu nome nos selos dos discos, nas partituras impressas, nos jornais de modinha, sempre na melhor das companhias. César Ladeira, com aquela classe, aquela dicção perfeita, anunciaria pelo rádio "o novo sucesso de Noel Rosa e... Kid Pepe!".
— Desculpe, Kid. Mas não sou parceiro exclusivo de ninguém.
Talvez Noel não devesse ser tão categórico. Podia ter contemporizado, inventado uma saída mais hábil, dizer ao outro que ia pensar no assunto, quem sabe amanhã ou depois, algo assim. Terá se esquecido de como Kid Pepe é quando quer alguma coisa? Vive ameaçando de morte os contrarregras de rádio que não tocam suas músicas, exigindo à força que compositores lhe deem parceria, que cantores gravem o que assina. Passa a perseguir Noel, a procurá-lo em toda a parte. Encontrando-o, volta sempre ao assunto. E em tom invariavelmente aterrador:
— Você não vive dando parceria a todo o mundo? Por que não a mim?
Noel foge, esconde-se de Kid Pepe. Se chega ao estúdio de uma emissora de rádio, antes olha para se certificar de que o outro não está. Permanentemente assustado, fala de seus temores a Zé Pretinho.
— O Kid ameaça muito e não faz nada, Noel.
Estão os dois e Roberto Martins nas proximidades da Central do Brasil. Roberto também é compositor. E dos bons. Conhece bem este meio de malandragem, só que do outro lado: é policial. Ele e Zé Pretinho prometem falar com Kid Pepe, mandar que deixe Noel em paz
(...) Uma noite, Noel está com Lindaura no estúdio da Rádio Club do Brasil. Zé Pretinho chega e o vê apavorado, indo a todo momento até a janela, olhando para baixo como se a procurar alguém.
— Qual o problema, Noel?
— Me disseram que o Kid esta lá embaixo esperando por mim.
— E o que é que ele quer?
— O mesmo de sempre, me arrancar parceria à força.
— Deixa essa questão comigo.
Zé Pretinho desce e de fato encontra Kid Pepe conversando com amigos à porta da emissora. Chama-o de lado, abre o paletó para que veja a coronha do revólver.
— Outra vez, Kid? Eu não te disse pra deixar o Noel em paz?
Kid mastiga duas ou três palavras.
— Tu não tá entendendo, Pretinho.
— Olha, vamos fazer um negócio: se tu quer bater no Noel, bate. Mas vai ser uma vez só. Depois disso tu nunca mais vai bater em ninguém.
Kid Pepe promete — dessa vez para cumprir — que Noel ficará em paz. Zé Pretinho sobe, chama Noel e Lindaura.
— Noel, comadre! Vocês podem ir embora tranquilos.
Noel quer saber como ele conseguiu demover Kid Pepe. E o amigo abre o paletó de novo, mostrando-lhe a coronha do revólver.
2.
É pela voz de Noel, num programa de rádio em princípios de março, que Kid Pepe toma conhecimento de Tenho Raiva de Quem Sabe. Ao ouvir o locutor anunciá-lo como de Zé Pretinho, Kid o procura. Diz que Mário Reis está atrás de alguma coisa para gravar no outro lado de Não Sei Que Mal Eu Fiz, de Heitor dos Prazeres, e que o encarregou de procurar por ele. Será que Pretinho deixa mostrar o samba ao Mário? E se o Mário gostar, poderia gravar no mesmo disco do samba do Heitor?
— É claro — responde Zé Pretinho todo animado.
Kid Pepe apresenta a música a Mário Reis, este gosta e grava-a na Victor a 25 de abril. Noel não está no Rio por esta época, mas viajando com Benedito Lacerda e sua turma numa série de espetáculos em cinemas e teatros do norte fluminense e Espírito Santo. Vai demorar mais do que se esperava, quase dois meses. De volta, quando o disco lhe cai nas mãos, constata perplexo que a autoria do samba é atribuída a Zé Pretinho e Kid Pepe. Fica sem entender. Como terá o Kid entrado nessa história? Logo o Kid Pepe! Não adivinha que este, sem pedir permissão a Zé Pretinho, mas cobrando em termos de autoria o favor de ter servido de intermediário junto a Mário Reis, colocou por conta própria seu nome no disco e na partitura. Noel fica indignado. Não com Kid Pepe, mas com Zé Pretinho. Pela suposta traição.
O próximo encontro dos dois vai acontecer na Rádio Cruzeiro do Sul, na Rua Mariz de Barros. Zé Pretinho já está lá. Ele e Manuel Ferreira no meio de outros compositores, cantores, locutores, pessoal técnico. Sem saber da zanga de Noel, Zé Pretinho o cumprimenta:
— Que bom que você está aqui, Noel! Queria que conhecesse um samba que o Jayme Vogeler vai cantar daqui a pouco, Amar é Muito Bom. Meu e do compadre Manuel Ferreira.
— Não vou corrigir mais nada pra você, Pretinho.
Noel segue em frente e Zé Pretinho fica sem entender coisa alguma. Corrigir o quê? O samba está pronto, entregue a Jayme Vogeler para cantar no programa desta noite. Que história é essa de corrigir?
— Poxa, Pretinho, o Noel não foi nada delicado com a gente — comenta Manuel Ferreira.
Zé Pretinho sai de onde está e vai ao encontro de Noel.
— Olha, Noel...
— Não quero conversa contigo, Pretinho! — diz virando-lhe as costas mais uma vez, agora entrando no estúdio para cantar o seu número.
Zé Pretinho está espantado. Espera que Noel cante, põe-se de pé à porta do estúdio. Estranho, Noel não é de falar assim com ninguém, muito menos com ele. E logo na frente dos outros, todo o mundo testemunhando. Zé Pretinho interpela Noel assim que o número acaba.
— Eu já te disse que não quero conversa!
Zé Pretinho fica furioso, levanta o braço, desfere um tapa que vai atirar Noel longe, quase no colo de Odette Amaral. Uns vão segurar Zé Pretinho, temendo que ele não pare por aqui. Outros acodem Noel. Só depois o agressor saberá o motivo da zanga do agredido, a intromissão indevida de Kid Pepe num samba que ele lhe dera de presente. Logo Kid Pepe! Mas será tarde. Noel nunca mais vai querer falar com ele. A não ser através de um samba, soberba crônica da vida carioca, do mundo dos malandros, do sinal dos tempos, o conselho de Zé Pretinho lembrado ao próprio Zé Pretinho, o revólver como forma de impor respeito. O velho malandro — o da rasteira, o da habilidade com o aço, o da ginga de corpo e da camisa de seda — começa a sair de cena. Um revólver pode muito mais. (...) É disso que fala Século do Progresso, o recado de Noel a Zé Pretinho.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagem: Aqueduto da Carioca, formando os célebres Arcos da Lapa. Marc Ferrez. 1905. Acervo IMS.
