Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o9
Era uma mocinha miúda, magra, de cabelos castanhos muito claros, os olhos ligeiramente rasgados, gestos discretos. Aguardava sua vez de subir ao palco quando notou que seu violão — justamente o violão de estimação, de um modelo premiado em Sevilha, presente do pai — estava nas mãos de Noel, que acabara de tomar sua cerveja e agora parecia experimentar o instrumento. Marília lembrou-se de ter deixado o violão sobre uma mesa perto do palco. Distraíra-se. Chegou apressada e apreensiva perto do moço magro que ela não conhecia e que (...) cantava um samba desconhecido.
Se pretendia zangar-se, a beleza do samba, o sentimento que o moço magro parecia imprimir a cada verso, a cada palavra, a fez mudar de ideia. Permaneceu ali, ao lado de Noel, ouvindo-o cantar acompanhando-se no violão que o pai lhe dera. Perguntou-lhe o nome do samba.
— Verdade Duvidosa.
Ficou maravilhada.
(...) isso se passou há dois anos. (...) Hoje, tem dezesseis anos e já é uma profissional experiente. Foi por isso que Ademar Casé convidou-a [para se apresentar] em seu programa de rádio. Este 1934 será o ano de sorte para ela. Especialmente porque nele, no Programa Casé, vai se aproximar de Noel Rosa.
Casé
Ademar Casé é um pernambucano empreendedor. É cheio de ideias (...). Casé teve a coragem — e também nisso é pioneiro — de comprar um horário da Rádio Philips (...). No começo, um horário de oito à meia-noite cabendo ao próprio Casé acumular as funções de produtor, agenciador, selecionador de artistas, corretor de anúncios e tudo mais que não o obrigasse a ir ao microfone (sempre teve medo deste milagroso engenho que leva a voz das pessoas a distâncias incalculáveis). Mas o programa, depois de dificuldades iniciais superadas pela ajuda de patrocinadores importantes (...), cresceu. Casé contratou Sílvio Salema para contatar os artistas, chamou Noel Rosa para ser, ao mesmo tempo, cantor e contrarregra, mudou o horário para toda a tarde de domingo.
Não há grande cartaz da música popular que não tenha passado ou ainda não vá passar pelo Programa Casé. Atraído por algo que é praticamente outra invenção do pernambucano empreendedor: o cachê. Antes dele, os artistas se apresentavam em emissoras de rádio quase de favor. Casé, porém, achou melhor profissionalizar seu espetáculo, pagando a todos — na hora — cachês que variam de acordo com o cartaz de cada um. Francisco Alves, por exemplo, é o mais bem pago: 35 mil réis. Carmem Miranda vem em seguida: 30. Os outros variam de 10 a 20.
Um programa em grande estilo através do qual se pode ouvir a orquestra de Pixinguinha, o regional de Benedito Lacerda, o piano de Nonô, os melhores cantores, os melhores locutores. E humoristas como Jorge Murad, Pinto Filho, Napoleão Aguiar, Quintanilha, Manuel Durães. A tarefa do contrarregra é justamente dosar os vários ingredientes do programa (Casé faz questão de que se obtenha a mesma dinâmica dos shows radiofônicos americanos que ele ouve pelas ondas curtas). E a Noel cabe, nos primeiros tempos, essa difícil dosagem, intercalando canções ligeiras com lentas, sambas com valsas, músicas com anedotas.
Para o público, porém, não é o contrarregra Noel Rosa que mais conta, mas o cantor, o compositor e ainda mais o improvisador que se destaca num quarto de hora que Casé criou para emboladas e desafios à moda do Norte. Muita gente fará bonito nesses improvisos, Manezinho Araújo, Patrício Teixeira, Almirante, a própria Marília Baptista que acaba de ser contratada. Mas Noel é imbatível — pela rapidez e originalidade — nessas disputas em forma de música e verso. Um dia ele chega com um estribilho que lhe parece excelente para o quarto de hora dos improvisos:
Nos próximos dois anos, um número obrigatório nas apresentações de Noel. Em pouco tempo, dele e de Marília, os dois se incumbindo dos improvisos que às vezes durarão dez, quinze minutos sem repetição de versos. É no Programa Casé que os dois se aproximam. E que Marília começa a se tornar conhecida. Ao lado de Noel ou no seu próprio quarto de hora, para o qual haverá em breve um prefixo que ela mesma comporá:
Aracy
(...) A linha do trem divide o Encantado em dois, um lado (...) de ruas sem calçamento, casas muito pobres, vidas modestas, e outro ainda pior, no qual, pés no chão, foi criada Aracy de Almeida, mulata miúda, jeito de molequinho de esquina, mas muito autêntica, de uma autenticidade que nada, nem o tempo, nem a fama, lhe vai roubar. (...) fez seu aprendizado no coro da igreja Batista da qual seu irmão Alcides é pastor. (...) Mas nunca ligou muito para a igreja, tampouco para a falta de dinheiro. O que queria mesmo era ser cantora de rádio. Sempre soube que tinha jeito.
São mesmo muitas as diferenças entre ela e Marília. Esta tem voz de timbre suave, pouco extensa, mas que aprenderá a usar com adequação. A voz de Aracy é anasalada, mas consistente, com certo acento triste que lhe dá cor muito própria. Não aprenderá nada: nasceu sabendo. Marília tem ouvido privilegiado (e graças a ele ainda será melhor compositora do que cantora). O ouvido de Aracy é duro. Sua memória musical, fraca. Tem dificuldade para aprender músicas de harmonizações complicadas. Marília domina a técnica, Aracy é artista intuitiva. Mas grande.
Qual das duas será a melhor intérprete de Noel? Na voz de qual suas composições soarão mais ao gosto dele? Numa entrevista a Orestes Barbosa, ano passado, antes portanto de conhecer Aracy mais de perto, Noel não hesitou em apontá-la como a melhor cantora de "samba de batida".
Em outra entrevista, será mais claro:
— Que tal essa Aracy?
— Um valor. É nova, mas das melhores.
Em outra, mais claro ainda:
— Qual a melhor intérprete de sua música?
— Aracy de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que produza.
Seja como for, serão estas as únicas referências que fará abertamente a uma das duas cantoras. Na intimidade, nem isso. Marília ou Aracy? Uma coisa é certa: do ponto de vista pessoal, como companhia para o que der e vier, suas afinidades serão sempre maiores com Aracy. Poderá perder a paciência quando chegar a hora de ensinar-lhe suas músicas, ela custando a familiarizar-se com a melodia, claudicando em certas passagens, tropeçando na letra. Mas tão logo aprenda a lição e o trabalho dê lugar ao lazer, Noel se transforma, a impaciência cede vez a um sorriso, os dois saem para uma boêmia que a bem-comportada Marília — o pai vigilante acompanhando-a a toda parte, festas, programas de rádio, recitais — nem imagina existir.
Na primeira vez que Noel a vê, Aracy canta um dos últimos sucessos de Carmem Miranda. Não espera para serem apresentados.
— Você tem jeito. Canta bem. Mas que tal aprender uns sambas novos e deixar pra lá o repertório de Carmem Miranda? Na mesma noite, vão à Taberna da Glória, cantam e bebem juntos. Noel apresenta-a aos malandros seus amigos, ensina-lhe sambas seus, entre os quais Riso de Criança, o primeiro que gravará dele. Depois leva-a até a Central para que tome o trem de volta ao Encantado.
Ficam amigos. Muitas vezes voltarão a beber juntos, na Lapa, no Estácio, nos botequins da Barão de São Félix. A pedido dele, Aracy vai cantar para suas meninas no Mangue ou nas casas ainda mais baratas das imediações da Central. Ela não se importa. Conhece a vida, faz o que quer, desde beber e fumar até jogar sinuca e cantar para as mulheres de Noel num prostíbulo de terceira categoria. Ficam realmente amigos, para todas as horas. Inclusive para que ela frequente o chalé, tome com ele uma sopa requentada de feijão no quartinho dos fundos, aprenda novos sambas. Dona Martha, de início, estranha a espontaneidade, o jeito de ser de Aracy.
— Nunca vi uma mulher dizer tanto nome feio!
Ceci
Tem de estar satisfeito o Cunha, casa cheia, (...) passeia feliz por entre as mesas, cumprimentando os fregueses conhecidos, tentando ser simpático aos que aqui vêm pela primeira vez. Repara nos dois jovens casais que ocupam uma das mesas do canto. E muito especialmente numa das moças, bonita, tipo mignon, toda sorrisos. Nota-lhe a alegria, quase encantamento. Terá no máximo dezessete, dezoito anos. Como é possível alguém tão jovem se encantar com um ambiente desses? O que terá visto no Apollo? Cunha se aproxima, cumprimenta os quatro ocupantes da mesa.
— Como é o seu nome? — pergunta à moça tipo mignon.
— Juracy... Mas todos me chamam de Ceci.
— Está gostando da festa?
— Estou maravilhada.
— Com o quê?
— Tudo, a música, as moças tão bem-vestidas...
— Gostaria de trabalhar aqui?
— Trabalhar como? Nem sei dançar tango.
— Nós te ensinamos.
Cunha explica-lhe que o Apollo paga quinze mil réis por noite a cada uma de suas dançarinas, mais as comissões. Um bom salário, e o trabalho não é muito. Entra-se às onze da noite, faz-se companhia aos clientes, dança-se com eles, conversa-se.
Sabe o que os homens vêm comprar aqui? Atenções. Apenas isso. Há muita gente sozinha neste mundo, explica o Cunha. Gente triste, sem companhia, que não tem por consolo ao menos um instante de compreensão e simpatia, uma palavra amiga, um sorriso. É para isso que essas moças estão aqui, para cercarem de atenções os que precisam, os solitários. No fundo, um trabalho de alto sentido humano.
— De onze da noite até que horas?
— Até três, quatro. Depende do movimento.
Cunha ressalta que é uma ocupação honesta que nem de longe pode ser confundida com a daquelas pensões da Conde de Lajes, da Taylor, da Joaquim Silva. Naturalmente, a administração do Apollo nada tem a ver com o que as moças fazem depois do expediente. Se quiserem sair com um cliente, prolongar a noite em algum lugar, isso é lá com elas. Aqui, repete o Cunha, só se vendem atenções, simpatia, sorrisos.
— Que idade tem você?
— Dezesseis anos — responde a moça.
Menor de idade. Mas todos os problemas se resolvem nestes cabarés da Lapa. Se a moça aceitar a proposta para trabalhar aqui, além de roupa (todas as dançarinas trabalham de soirée, como verdadeiras damas, pois a classe, lembra o Cunha, é tudo), a casa lhe dará garantia de que, se houver batida policial, ninguém a molestará.
— Basta você se esconder no banheiro. Muitas das nossas moças vivem se escondendo no banheiro. São menores de idade também.
Ceci diz que até o final da festa dará uma resposta. Quinze mil réis por noite, mais as comissões sobre o que os fregueses consumirem em sua companhia... Além do mais, deve ser maravilhoso trabalhar aqui, conhecer gente, conversar, dançar. Nunca teve um soirée em toda a sua vida. Para falar a verdade, sequer pode dizer que teve algo de realmente seu desde que veio ao mundo, em 1918. É quase meia-noite. O cabaré fervilha.
(...) Ceci sabe desde o primeiro instante qual a única resposta que pode dar ao Cunha. Por inexplicável razão, deixou-se enfeitiçar pelo cabaré. O lugar parece-lhe tão cheio de vida, tão feito de promessas. Mesmo sabendo que nem toda noite é noite de festa, realmente fica encantada pelo que vê aqui, moças vendendo atenções e no entanto cercadas de atenções. Os homens as convidam para dançar, lhes oferecem champanhe, lhes dizem palavras gentis. Moças bonitas, bem-vestidas. Como frisa o Cunha, selecionadíssimas.
Ceci vai admitir um dia que é quase embriagante a atmosfera de ilusão que se respira nesta sala. E ilusão talvez seja do que mais precisa. Ilusão e um emprego de quinze mil réis por noite. Quem sabe esta [noite] não mudará sua vida?
Noel
Convidado especial da noite, Noel Rosa termina seu número e começa a circular por entre as mesas. Ceci não o conhece. Muito menos ele a ela. Até que seus olhares se encontram. Ele não pode deixar de notar que a moça de verde-claro sentada mais adiante é muito diferente das outras mulheres daqui. Não só pela idade. Ou pelo fato de trajar um costume em vez de soirée. São suas maneiras — a delicadeza, o recato, a curiosa mistura de timidez e embevecimento impossível de encontrar em qualquer outra das meninas do Cunha — que parecem atraí-lo.
— Trabalha aqui?
— Posso dizer que sim.
A vida de Ceci vai mesmo mudar — e muito — a partir deste 23 de junho de 1934.
(...) As roupas, as amizades, os hábitos, as maneiras. Em breve a casa [em que mora com uma tia] será trocada pelo apartamento que dividirá com uma colega de trabalho num primeiro andar da Avenida Gomes Freyre.
(...) Também terão fim seus dias e noites de solidão, a saudade que começa a sentir de casa sendo amenizada pela pequena multidão que faz do Apollo um dos lugares mais frequentados da Lapa.
(...) Gosta de ouvir os fregueses dizerem que é a mulher mais bonita da casa, mesmo sabendo que [muitas vezes] tais elogios não passam de confete barato.
— Por que não trabalha em teatro? Tenho amigos que lhe podem conseguir um lugar de corista numa dessas revistas da Praça Tiradentes.
— Não gostaria de posar profissionalmente?
Para Noel Rosa, porém, Ceci continua a mesma daquela primeira noite do Apollo. É com sintomática frequência que ele aparece no cabaré para vê-la. Puxa conversa, tira-a para dançar, convida-a para saírem juntos depois do expediente. Ceci gosta de Noel, acha-o simpático, divertido, muito inteligente, mas não pretende se envolver. É muito moça, está encantada com a vida noturna, não quer abrir mão de ser cortejada por todos os fregueses, não quer prender-se a um só.
— Vamos continuar assim, amigos — a resposta se repete a cada novo convite de Noel.
Para que ficar presa aos carinhos — e também aos ciúmes — de um só homem, se bem melhor e menos limitador é dividir-se entre muitos? Não se conforma em ver algumas de suas amigas padecerem nas mãos de homens insofridos e possessivos que começam prometendo-lhes tudo, inclusive compreensão para com a vida que levam, e no entanto mudam assim que se apaixonam. Ceci é pouco mais do que uma adolescente, mais jovem do que qualquer outra aqui, mas viva, inteligente, aprende depressa. É impossível viver na Lapa sem aceitar-lhe as leis. Leis que ela não só aceita como aprova, principalmente em sua profissão, as dançarinas de cabaré obrigadas a vender sorrisos a todos os fregueses, sem se prenderem a nenhum. Batem asas de mesa em mesa, realizando muitas e sempre breves escalas. Ora aqui, ora ali, não é por acaso que muitos as chamam, ainda que pejorativamente, de mariposas. São as leis do lugar.
Noel sempre conheceu e respeitou essas leis. Mas quando o coração se envolve, de que adiantam?
No começo de seu relacionamento com Ceci parece aceitar tacitamente que ela seja como é, livre, não só sua, mas da noite. E a noite sempre teve muitos habitantes. Depois mudará. Mas a aceitação dos primeiros tempos — uma aceitação de quem compreende perfeitamente como vivem as mulheres da Lapa — ele chega a registrar num samba que só daqui a dois anos lançará, um samba ironicamente intitulado Dama do Cabaré, no qual fala não apenas do seu primeiro encontro com Ceci, mas do quanto sabe serem sagradas para ela as leis da boêmia.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
Marília Baptista 'cercada' de rapazes. Da esquerda para a direita: Mário Moraes, Ciro de Souza, Henrique Baptista, Fernando Pereira, Renato Baptista e Noel Rosa.
Marília Baptista. Foto de divulgação.
Aracy de Almeida. Foto de divulgação.
Aracy de Almeida. Aracy ao centro. Ao seu lado, à direita, Carmen Costa. Foto de O Cruzeiro, 1940. Fonte: memoria.bn.br/
Ceci em 1940. Arquivo de Almirante.




