Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o5
Um bando de pássaros
(...) pelo que sabe fazer [como] acompanhante de cantores da madrugada, o nome de Noel Rosa já corre pelo bairro: "Só tem dezoito anos. E que violão!".
[Certo dia] é procurado por um grupo de jovens como ele.
Neste 1929, [cresce] o número de gravadoras em atividade no Brasil. E uma delas, a Parlophon, subsidiária da Odeon, acaba de oferecer a estes rapazes a oportunidade de fazerem um disco.
Noel conhece-os quase todos. Senão de perto, pelo menos de vista, de encontros ocasionais pelas esquinas de Vila Isabel.
Almirante, 21 anos, cantor, compositor, pandeirista, é também um líder nato.
Braguinha, 22, é o mais velho dos quatro. Sofrível no violão, canta mal, mas compõe mais do que bem.
Henrique Britto, 19, é sem dúvida o melhor violonista de todos. Por esta época, já gravou discos na Odeon solando composições suas e alheias.
O quarto e último é Álvaro de Miranda Ribeiro, o Alvinho. (...) 19 anos, violonista, compositor bissexto, mas cantor afinadíssimo.
Propõem a Noel juntar-se a eles, o Bando de Tangarás.
No conjunto, já está decidido, ninguém receberá um níquel para se apresentar em festas, reuniões, casas de família, ou mesmo em teatros e outros lugares em que se cobram ingressos.
— Não podemos deixar que nos confundam com profissionais — sentencia Almirante, consciente do quanto é malvisto quem vive de música!
O convite que lhe trazem Almirante, João de Barro, Henrique Britto e Alvinho abre novo capítulo na presente história. Nele vai nascer, enfim, o compositor popular Noel Rosa.
As primeiras apresentações de Noel em público serão como integrante do Bando de Tangarás. A 27 de junho de 1929, sábado, num espetáculo denominado Noite Regional Brasileira, no Tijuca Tênis Clube, ele canta (...) sua primeira embolada.
Festa no Céu — que a partir de agora ele apresentará como sua obra de estreia, embora não o seja realmente — tem melodia e ritmo 'nordestinos'. A ideia é inspirada em história infantil muito conhecida, mas a letra em si, com todo o acento pseudomatuto, é de grande originalidade.
Assim como Festa no Céu, várias outras cantigas 'típicas', criadas por Almirante e os tangarás (...), serão levadas ao disco e constituirão a base inicial do repertório do grupo. Seguem a moda, que já há quase duas décadas tem dado fama a, entre outros, Catulo da Paixão Cearense, João Pernambuco, o Grupo de Caxangá, os Turunas da Mauriceia e até mesmo os Oito Batutas de Donga e Pixinguinha.
O Noel Rosa que os outros tangarás conhecem neste 1929 (...) não se parece com ninguém. Nem mesmo com o extrovertido e picaresco adolescente que, não faz muito, divertia os colegas nas salas e corredores do São Bento. Ainda comete as suas graças, mas costuma alterná-las com outros humores. Se é possível encontrá-lo à mesa de um dos cafés do Boulevard, desfilando piadas e trocadilhos, inventando histórias, expondo pensamentos de sentido filosófico não muito ortodoxo, (...) é possível também vê-lo imergir em indecifráveis silêncios, desligar-se, ficar distante. (...) São ausências que se fazem de repente, como um apagar de luzes. E que se repetirão, com maior ou menor frequência, por toda a vida.
Pouco andará com os integrantes do Bando. A não ser que os compromissos do conjunto o levem a isso, preferirá companhias menos bem-comportadas. Raramente irá a uma dessas festas de que Almirante e os outros gostam tanto, em casas de famílias abastadas da Tijuca. Seus programas são diferentes. Nada de pessoal contra qualquer dos quatro companheiros. Só não lhe agradam os ambientes grã-finos, as reuniões repletas de poses e cerimônias. Sente-se mais à vontade nos botequins baratos, nas tendinhas de pé de morro, nas salas de espera de um viveiro de mulheres. Os tangarás jamais se acostumarão com o insólito dessas preferências. (...) atribuem mesmo a um temperamento esquisito ele preferir os malandros, os jogadores, os motoristas de táxi, os operários de fábrica, a gente do morro, os boêmios, os bêbados, os vadios aos filhos das mais distintas famílias tijucanas. Não o compreendem.
Tangará abraça o samba
São muito interessantes essas coisas que os tangarás fazem inspirados nos ritmos e cantigas que vêm de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Sergipe, Bahia. Mas Noel Rosa é do Rio de Janeiro. Carioca impenitente, acaba concluindo que é mesmo o samba o idioma em que melhor poderá expressar suas ideias e sentimentos, seu cotidiano, sua realidade.
Mardade de Cabocla, feita especialmente para o companheiro de serestas Alegria cantar, não chegará a ser gravada em disco. Mas é ótimo ponto de partida para que se compreenda a transformação definitiva do compositor Noel Rosa, ou seja, de sua passagem do nordestino para o carioca, de sua troca do sertanejo que invadiu o Rio no começo da década pelo urbano que melhor retrata o seu universo. A letra fala de um amor infeliz:
A gente vê uma cruz
Que chama logo atenção
Quem fincô foi siá Chiquita
A caboca mais bonita
Que pisou no meu sertão
Que por ela davam a vida
Os cabocos do rincão
Tiveram a mesma intenção
E também a namorada
Lá na festa do arraiá
Zé Simão indignou-se
Nos repente intrapaiou-se
Perdeu pro Chico Ganzá
E também a namorada
Não disse mais nada, não
Foi manhãzinha encontrado
Com um punhá bem enterrado
Pro riba do coração
Pois bem. Daqui a alguns anos — mais precisamente em 1932 — Noel partirá destes versos inéditos para recontar a trágica história de dois homens apaixonados pela mesma mulher. Mas trocará o tempero sertanejo pelo molho da cidade, o imaginário arraial do Bom Jesus pelo nada imaginário morro da Mangueira, os dois caboclos do rincão por dois malandros do Rio, siá Chiquita por Rosinha, "cabrocha de alta linha". E, o mais importante, a canção sertaneja pelo samba. Disso resultará Quando o Samba Acabou, mais do que uma versão revista, aumentada e urbanizada de Mardade de Cabocla, o primoroso atestado da adesão definitiva de Noel Rosa ao gênero que o consagraria.
Leitura Complementar: Sinhô
Candoca
O Bando de Tangarás tem um disco para gravar na Odeon até o final de novembro. É preciso andar depressa para que o lançamento se faça ainda em dezembro, do contrário não poderá ser incluído no último suplemento Parlophon para o carnaval de 1930, o primeiro do conjunto.
Os dois lados do disco são logo definidos. Um deles é Não Quero Amor Nem Carinho, de João de Barro e Canuto:
Já jurei
O outro lado será Com Que Roupa?, que Noel mostrou a todo o conjunto, recebendo, mais do que aprovação, palavras de entusiasmo. O samba bem pode ser o carro-chefe dos tangarás nas batalhas que se aproximam. Mas antes que se pense na gravação é preciso passar a composição para a pauta e levá-la ao editor.
(...) no mesmo dia Noel, João de Barro e Almirante vão juntos à casa de Homero Dornellas, na Rua Torres Homem.
Filho de Sophonias Dornellas, compositor e regente de peças para teatro, principalmente revistas e operetas, o próprio Homero compõe. E toca, entre outros instrumentos, o violoncelo. Tem ambições maiores do que as que se confinam no campo da música de rádio. Sonha em escrever poemas sinfônicos, peças de câmara, obras dramáticas.
(...) por suas ambições de chegar às salas de concerto consideradas 'sérias', explica aos tangarás que, como compositor popular, prefere ocultar-se atrás de um pseudônimo: Candoca da Anunciação.
Hoje, entre suas várias atividades musicais, a mais estável e bem remunerada (embora não muito) é a de pianista da Casa Vieira Machado, onde desde o ano passado substitui o jovem e talentoso compositor gaúcho Radamés Gnattali na função de passar para a pauta as invenções daqueles que não sabem escrever música.
Homero senta-se ao piano e pede que Noel cante o samba. Fica observando o rapazinho mirrado, oblíquo, cujos dedos compridos escorregam pelo braço do violão enquanto canta, tímido mas afinado: "Agora vou mudar minha conduta"...
Identificada de imediato a intenção paródica das primeiras frases, Homero Dornellas entrará para a História como o responsável pela inversão da curva melódica idêntica à do Hino Nacional para sua forma definitiva.
O diálogo entre o maestro e o sambista [inconfundivelmente romanceado], será repetido ao longo das décadas seguintes.
— Noel, há umas coisas aqui que não estão me agradando: "Agora vou mudar minha conduta"... Repete isso.
Noel obedece.
Lá ré dó# ré mi fá# mi fá# sol sol#... lá ré
— Essa música não pode ser publicada — interrompe Homero.
— Por que não?
— Porque isso não é samba, é o Hino Nacional Brasileiro. Os homens da censura não vão deixar. Além de proibir, podem até te prender. Não é permitido fazer brincadeiras com o Hino Nacional.
Depois de breve silêncio, Noel indaga, meio assustado:
— E agora?
— Ora, a gente dá um jeito — tranquiliza-o o maestro. (...)
Vamos inverter algumas notas desta primeira frase, "Agora vou mudar minha conduta"... começando com o lá uma oitava acima:
Lá fá# mi ré mi fá# mi fá# sol lá fá#
Homero mostra no piano como a linha melódica sofre ligeira alteração, fugindo à semelhança com o Hino. Muito simples. Noel canta o samba mais uma vez, agora em sua forma definitiva, a direção das primeiras notas invertidas pelo maestro, assim, menos parecido com o Hino Nacional, do que talvez seu compositor desejasse.
Já imunizada contra os poderes do Departamento de Censura, Com Que Roupa? vai para a pauta, a caminho de se transformar num sucesso do carnaval de 1930.
Só que a música popular, como a própria História, tem seus caprichos. Às vezes ocultos pela proposta tímida de um compositor modesto como Homero Dornellas:
—- Antes que vocês se fossem, gostaria de lhes mostrar um samba que comecei a escrever. Querem ouvir?
João de Barro, Almirante e Noel concordam em ficar mais um pouco para conhecerem o refrão que Homero diz ter escrito a partir de um toque de corneta ouvido pela primeira vez quando ele servia a bordo do navio Poconé (...) em 1924. O navio tinha excelente corneteiro, o cabo Clodomiro Marins, sujeito muito brincalhão que costumava levar o instrumento à boca, soprar um sol-sol-dó-dó e, logo em seguida, gritar para os companheiros: "Na Pavuna, seus filhos da puta!" Homero nunca entendeu por que o Marins dizia aquilo, mas as notas lhe ficaram na cabeça desde aquela época, sol-sol-dó-dó, um dos dós na oitava de cima, o outro na oitava de baixo.
Um dia — conta ele aos três tangarás — foi convidado para um batizado (...) no subúrbio carioca da Pavuna. (...) Lá chegando, (...) E, sem saber por que, começou a cantarolar as quatro notas, sol-sol-dó-dó. (...) numa folha de jornal improvisou um pentagrama e sobre ele anotou o esboço de melodia. (...) Nasceu assim o refrão de Na Pavuna:
Na Pavuna...
Tem um samba que só dá gente reiúna.
(...) Almirante hesita. Não lhe agrada essa história de 'reiúna', nem a construção do segundo verso. Mas Homero volta ao piano, repete a melodia e acaba convencendo Almirante de que o refrão tem força.
— Quanto a reiúna, é gíria de soldado — explica Homero.
(...) Almirante está convencido. Mais do que isso, subitamente entusiasmado. O refrão tem mesmo força, é fácil de pegar. Concorda em tornar-se parceiro de Homero. [ali] mesmo, na presença de João de Barro e Noel, trabalham na segunda parte do samba. Em minutos chegam ao resultado. Simples, mas carnavalesco.
Ninguém pode imaginar que o refrão vai-se transformar numa espécie de marca registrada, não de Homero ou Candoca, seu autor, mas de Almirante, cuja antevisão das coisas, tratando-se de música popular, é impressionante. E ele antevê o êxito do novo samba. Por isso, como líder do grupo, aquele a quem cabem todas as decisões, diz:
— Olha, Noel... Acho que o Com que Roupa? vai ter que esperar até o outro carnaval.
— Por quê? — indaga Noel surpreso.
— Porque este vai ser o carnaval do Na Pavuna.
E ficam todos ouvindo Almirante defender que deve ser seu e de Candoca da Anunciação o outro lado do Não Quero Amor Nem Carinho. O líder dos tangarás é persuasivo, sempre consegue o que quer. Noel encerra o assunto com uma simples frase:
— Mete a vela, Almirante!
Do Faz Vergonha à malandragem
Já que não tem samba ou marcha de sua autoria para cantar neste carnaval, (...) Noel terá de se contentar, mesmo, com os improvisos do Faz Vergonha.
Competitivo como um dia será o das escolas de samba, o desfile de blocos é um dos pontos altos das batalhas de confete do Boulevard.
(...) figuras de proa do Faz Vergonha — Antenor Grande, Jurema Bola Sete, Candinho, João Pelanca, Gude, Piscalhada, Salvador Cara Larga, Culé, Carrão, Pedro Pé de Banha, Heitor Barrigudinho — reúnem-se quase todas as noites, de dezembro a fevereiro, para traçarem planos com vistas ao carnaval. Discutem sambas, fantasias, estandartes e estratégias a serem seguidas pelo bloco (...) Conferências longas, animadas, que volta e meia contam com a presença do jovem folião Noel Rosa.
Noel é figura de destaque no Faz Vergonha, uma vez que cabe a ele — e assim será por mais alguns anos — a tarefa de improvisar versos (...). o bloco parte de um estribilho original, composto por um de seus integrantes, e em seguida os improvisadores criam versos para a segunda parte.
E na arte de improvisar, Noel Rosa é insuperável.
Tangarás
De maio de 1929, quando estrearam na cera (...), até maio de 1933, quando entrarão no estúdio da Odeon para gravarem juntos pela última vez (...), os tangarás aparecem em 38 discos, 73 faixas, a maioria de autoria de Almirante, o cabeça do grupo.
Almirante é também o mais constante cantor.
Noel, por sua vez, não abre mão de certo jeito desgarrado de ser, aquele temperamento de não pertencer exatamente a nada ou a ninguém (...). Almirante, com toda sua autoridade de líder, compreende isso, não se zanga quando Noel não aparece para um ensaio, um recital, uma gravação. Se tal acontece, seguem sem ele.
[Para completar], a maioria dos amigos de Noel continuam nada tendo a ver com os amigos dos demais tangarás. Não se parecem, nenhuma afinidade guardam com os bem-comportados moços de Vila Isabel. Como diz Almirante, Noel tem uma "incontrolável tendência às más companhias".
[Ou] como dizem enfim os vizinhos:
— Este filho de dona Martha só vive metido com gentinha.
Noel ainda não tem vinte anos e já pode considerar-se bastante familiarizado com as coisas da malandragem, sua gente, suas leis, seu apaixonante ainda que estranho mundo. Sente-se atraído por ele. Mesmo que não viva exatamente de acordo com suas regras, aceita-as, [e fará] sua apologia em letra de samba. Os malandros o fascinam, sempre o fascinarão. (...)
Um dos sambas que criou neste 1930 — e que em breve gravará sem os tangarás, do outro lado de Com Que Roupa? — inspira-se neste mundo. Fala do papel que o próprio Noel representa nele, um malandro de fora, frágil, tímido, medroso, acreditando nas leis da malandragem, mas só as seguindo até onde seu fôlego permite.
Mas te pagarei quando puder
Se o jogo permitir
Se a polícia consentir
E se Deus quiser
Não pensa que eu fui ingrato,
Nem que fiz triste papel,
Hoje vi que o medo é um fato
E eu não quero um pugilato
Com teu velho coronel
E eu evito concorrência
Quem gosta de mim sou eu!
Neste momento, eu saudoso me retiro,
Pois teu velho é ciumento
E pode me dar um tiro...
E eu detesto a concorrência
Quem gosta de mim sou eu!
Neste momento, eu saudoso me retiro,
Pois teu velho é ciumento
E pode me dar um tiro...
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagem:
Selo do disco Parlophon 13.245, de 1930 com Malandro Medroso, o lado B de Com Que Roupa?.
Vídeo:
Imagens raras do Bando de Tangarás, feitas em 1929.
