Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o6

Modéstia à parte, meus senhores
Os tangarás (e seus principais adendos) são apenas parte da efervescência musical de Vila Isabel. Parte importante, mas apenas parte. Aos poucos irá se saber, hoje, no ano que vem, no máximo até o carnaval de 1932, que muita gente boa — moradores ou visitantes, membros da grande família ou filhos adotivos — vive por aqui: os tangarás, Francisco Alves, Lamartine Babo, Nássara, Christovam de Alencar, Seringa, Orestes Barbosa e os outros Barbosas de famílias distintas, os negros e os brancos, Quidinho, Arnaldo Amaral, Kalua, os irmãos Newton e Valzinho Teixeira, Antônio Almeida e Cyro de Souza, Homero Dornellas, Henrique Gonçales, J. Cascata, os seresteiros, chorões e sambistas de morro que poucos conhecem.
O mais famoso é mesmo Francisco Alves, espécie de ídolo de todos os outros, respeitado, cultuado quase. Alguns de seus admiradores, como Paulo Netto de Freitas e Castro Barbosa, costumam fazer serenatas sob sua janela, no 185 da Rua Justiniano da Rocha, como se ele fosse a musa de suas canções.
(...) Por mais inusitadas que pareçam essas serestas, elas têm sua razão de ser. Todos querem agradar Francisco Alves, querem ser ouvidos por ele, homem influente que tem força o bastante para dar a um cantor iniciante um contrato de experiência na Odeon. Vez por outra, a Paulo Netto de Freitas e Castro Barbosa juntam-se seresteiros ocasionais, Almirante, João Petra de Barros e seu irmão Mário, Arnaldo Amaral, Alvinho, os rapazes da família Boamorte, Alegria e sua turma, João de Barro, Leonel Faria. E Noel Rosa também. Neste 1930, Francisco Alves ainda é um ídolo distante, inatingível aos olhos desses jovens seresteiros ansiosos por impressioná-lo. O simples fato de vir o famoso cantor a tomar conhecimento da existência de algum deles já seria motivo de contentamento e orgulho.
Lamartine
[No dia] que apareceu por ali, ninguém o viu: estava escondido atrás de uma linha de pipa. Não há quem resista a uma piada sobre sua magreza. Nem ele próprio. Como no dia em que, convidado a apitar um jogo de futebol, desses de casados contra solteiros, disse: "Aceito, contanto que não vente". É de fato muito magro, todos se impressionando com a fragilidade de seu físico.
Mesmo que existam por aí criaturas mais encaniçadas que ele, os olhos redondos, encovados, as maçãs do rosto protuberantes, ossudas, as bochechas chupadas, resultado de alguns dentes perdidos muito cedo, tudo isso ajuda a acentuar o aspecto cadavérico de Lamartine, fazendo-o parecer ainda mais magro.
É um apaixonado pela música. De qualquer tipo. Dos hinos litúrgicos (chegou a compor uma Ave-Maria nos tempos do Mosteiro) ao samba rasgado. Quando rapazola, era frequentador das torrinhas do Lyrico e do Municipal, louco por óperas e operetas. Mas é também um enamorado — e profundo conhecedor de todos esses ritmos que andaram virando a América de pernas para o ar na flamejante década que passou. Adora carnaval. E vive atento a sambas e marchas que já se fixaram como os gêneros definitivos da maior festa brasileira.
Como se vê, a antena de Lamartine está posta em muitas direções. A obra que construirá — numerosa, variada, duradoura — será reflexo dessa universalidade. Terá um pouco de tudo, árias operísticas, valsas, fados, tangos, ritmos americanos, canções, marchas, sambas.
Nássara
No começo, o pessoal do Ponto de 100 Réis ligava menos para Antônio Gabriel Nássara do que para as irmãs dele.
Nássara e Noel são amigos, companheiros de conversa, de cantoria no botequim do Carvalho, de peregrinação pela noite. Não se pode negar que seus temperamentos são muito diferentes, Nássara sendo bem mais comportado, Noel dando-lhe sempre a impressão de que tem um parafuso fora do lugar, agindo de maneira imprevisível, às vezes falando muito, às vezes mergulhado em longos silêncios. Sim, um parafuso fora do lugar. Mas que um dia o 'turco' compreenderá como sendo coisa de superdotado, de alguém além e acima, que não pode ser visto nem julgado pelos padrões comuns. E quem há de abrir os olhos de Nássara para isso é Orestes Barbosa:
— Sabe de uma coisa, Nássara? O sem-queixo é um gênio.
OrestesOrestes Barbosa é o mais velho de todos os poetas que circulam pelos botequins do Boulevard. Dezoito anos antes de nascer Noel, veio ele ao mundo, aqui pertinho, na Rua Pereira Nunes, lugar que muitos ainda teimam em chamar de Aldeia Campista, mas que cedo ou tarde acabará encampado, de direito e de fato, por Vila Isabel. É Orestes, portanto, quase um quarentão quando os tangarás começam a fazer sucesso no rádio e no disco.
É o mais velho e de certo modo o mais brilhante. Culto, único aqui que já cruzou o Atlântico para ver com os próprios olhos as cores da civilização europeia, capaz de falar de todos os assuntos, arte e política, ciências ocultas e episódios mundanos. Conhece Virgílio, Homero, Ovídio, Plutarco, lê os poetas franceses no original e arranha o inglês. Mas é brasileiro até a raiz de seus poucos cabelos.
(...) verdadeiro gênio na arte de conversar, ágil com a palavra, oportuno com a frase, incisivo, cortante. Um mestre do sarcasmo, do humor irônico, da maledicência. Nisso, é não apenas admirado, mas também temido:
— Olha lá o Orestes na mesa do Nice. A quem estará envenenando?
Paes da Rosa
Noel e Alegria cantavam sob a janela de uma casa de vila na Rua Maxwell quando viram parar, lá na entrada, o carro da polícia. Eram quase duas da manhã. Alegria engoliu seco, o violão de Noel emudeceu, os dois pensando tratar-se do delegado Palhares, um apaixonado pelo Fluminense que sai por aí engaiolando gente toda vez que o seu time perde (e o Fluminense havia perdido feio o jogo de domingo). Mas não era o Palhares e sim o Paes da Rosa, comissário do 18° Distrito. Os dois seresteiros continuaram calados, imóveis, esperando pelo pior.
— Escute aqui — disse o comissário para Alegria.
— Pois não, seu doutor.
— Vocês conhecem Última Lágrima?
Noel e Alegria se entreolharam. Não conheciam, não.
— Aquela valsa do Cândido das Neves.
— Ah! — exclamou Alegria aliviado. O doutor deve estar falando de Íntima Lágrima.
— Sim, esta mesma.
— Conhecemos, sim, seu comissário.
— Então vamos lá. Cantem. Mas depressa. Tenho ronda pra fazer.
*
Leituras Complementares: Nem Rei, Nem General / A Casa da Rua Moju
Conquistando a cidade
Um sucesso como nunca se viu. Parece até que o Rio despertou agora há pouco ao som de um só samba, ouvindo a voz de um só cantor, recitando os versos de um só poema. Música e letra de Com Que Roupa? ressoam por toda parte, conquistam todos os bairros.
Se não for a melhor composição desta safra, é decerto a que maior impacto causa, a mais cantada, tocada, comentada, elogiada. (...) a que mais intimamente sensibilizará a alma do carioca, tornando-se parte de sua vida, de suas conversas, de seus hábitos, de sua linguagem: "Jantar no Assyrius? Com que roupa, meu caro?".
As emissoras de rádio tocam o disco sem parar. Alto-falantes instalados em alguns pontos da cidade, Rua Dona Zulmira, Praça Saenz Pena, Avenida Atlântica, projetam a voz de Noel a cantar, queixoso:
Sucesso sem precedentes, com o qual o próprio Noel deve estar surpreso. Afinal, se esperasse êxito tão grande, o disco chegando a vender mais de 15 mil cópias, não teria aceitado a proposta do cantor e locutor Ignácio Guimarães: 180 mil réis pelos direitos do samba. Acordo fechado na hora, assim como o da venda de Malandro Medroso [o lado B] a um amigo de Ignácio, também cantor, Paulo Rodrigues. Resultado: pelas duas faces de um disco que teve venda formidável, Noel Rosa não recebeu um tostão além do que lhe foi pago pelos dois cantores.
Repórteres o procuram para que conte a história do samba. (...) Das muitas entrevistas que dá, uma, daqui a quase quatro anos, se tornará uma espécie de versão oficial. Fantasiosa, típica de um Noel que sempre se divertirá inventando histórias para vê-las impressas em letra de fôrma, esta versão, talvez por seu tom pitoresco, caricato, será repetida como a verdade das verdades. Sobreviverá ao próprio Noel, resistirá a todos os desmentidos:
"Com Que Roupa? tem uma história interessantíssima que vale a pena contar aqui, a título de curiosidade. Foi um caso que aconteceu comigo mesmo. Com sangue de boêmio, eu passei a chegar em casa, em determinada época, a altas horas da noite. Vinha de festas ou de serenatas, ou de simples conversas. Mas o fato é que essa vida, passada toda em claro, devia prejudicar a minha saúde. Foi o que aconteceu (...) Mas quem mais se assustava era mamãe. Pressentiu, antes que ninguém, o meu estado. E, dia a dia, renovava as suas advertências, os seus apelos, para que não me demorasse na rua tanto tempo, para que dormisse mais, que eu acabava doente. Eu prometia que sim. Mas a minha vontade era nula. E chegava, fatalmente, às mesmas horas, com as mesmas olheiras e com aquele emagrecimento progressivo, que estava alarmando todo o mundo. Desesperada de conseguir a minha obediência pelos recursos da persuasão, minha mãe lembrou-se de um antigo recurso, mas cujo efeito é sempre eficaz. Assim é que escondeu todas as minhas roupas. Sem exceção. Fiquei desesperado. O pior é que, na véspera, mandara que alguns amigos me viessem buscar para irmos a uma festa. Os amigos não faltaram. À noite, batiam lá em casa; 'Como é, Noel, vamos para o baile?' E eu, dentro do meu quarto: 'Mas com que roupa?'. Mal eu tinha acabado de soltar a frase, e ocorreu a inspiração de fazer um samba com esse tema. Daí o estribilho: com que roupa eu vou ao samba que você me convidou?". (Diário de Notícias, 15 de fevereiro de 1931)
Observadores políticos atentos não cairão em nenhuma das armadilhas que Noel prepara nas muitas entrevistas que dá, em cada uma delas contando uma história diferente.
Múcio Leão, do Jornal do Brasil, por exemplo:
"Mas há mais do que isso no carnaval deste ano: há uma canção proletária! A hora atual é de crise profunda, e o brasileiro sofre todas as amarguras de uma miséria a que não estava habituado. E esse estado de alma está refletido numa das nossas músicas populares. Eu não conheço nada mais característico da alma do brasileiro miserável dos dias de hoje do que a canção que por aí corre e na qual vemos um indivíduo queixar-se de não ter uma roupa com que vá a um samba para que foi convidado. Não ter um terno, ver o seu paletó transformado em estopa, ter a certeza de que esta mesma estopa vai ser farrapo daí a algum tempo e, diante dessa extrema calamidade, não ter dinheiro para comprar um fato novo — mesmo que seja ordinaríssimo — aí estão as dores do brasileiro de agora, do brasileiro humilde, filho da multidão, que cifra toda a sua ventura em ter três dias no ano em que possa sambar e se divertir à vontade. Eu creio que nada existe na literatura brasileira culta que, como documento, valha essas pequenas canções vagabundas que iluminam o nosso carnaval".
Noel tem mais sete [composições] gravadas para este carnaval, por ele ou por outros artistas: Eu Vou Pra Vila, Malandro Medroso, A.B. Surdo, Nêga, Por Esta Vez Passa, Dona Aracy e Dona Emília. Para um estreante em carnaval, um respeitável lote, mas ofuscado por Com Que Roupa?.
Faz Vergonha
Mais do que nunca Noel é uma das atrações do Faz Vergonha. E, embora se cante sua marcha com Glauco e outras composições do pessoal do bloco, à sua passagem o comentário não muda: "Ele é que fez o Com Que Roupa?". Mas Noel nem dá importância, tão envolvido está com a alegria do bloco, a sua própria alegria. Este ano ele sai entre os improvisadores com uma fantasia arranjada à última hora: sapatos, bolsa, chapéu e vestido de dona Martha. Um vestido estampado, colorido, há muito fora de uso, dentro do qual o corpo mirrado de Noel quase some. Está contente com o sucesso, com a vida, com tudo. Canta, dança, inventa passos entre uma cerveja e outra. (...) O bloco vai até a Praça 7, faz o contorno e volta ao Boulevard para o percurso na direção do Largo do Maracanã. Noel segue inventando passos, requebra, faz uma pirueta, planta uma bananeira. Na altura da Felipe Camarão, um guarda atravessa a corda, puxa-o pelo braço e lhe diz baixinho, em tom de paternal reprimenda:
— Assim não dá, Noel.
— O que é que houve, seu guarda?
— Esta fantasia. Não dá para dançar com ela.
— Mas é um vestido, seu guarda. Como de todo mundo.
— Sim, seu Noel. Mas me faz um favor: se é para dançar, trate pelo menos de botar um calção por baixo.
O 'Gago'
Noel é aprovado no vestibular. Tangenciando a média mínima exigida, consegue um parcimonioso 3,6.
Coincidência curiosa: a 24 de abril, exatamente no mesmo dia em que se matricula sob o número 572 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Café Com Música, contendo oito composições suas, estreia no Recreio.
Dessas oito, porém, apenas três são realmente (...) inéditas. [Entre elas] uma não é menos que uma obra-prima: Gago Apaixonado.
(...) Quem será, para sempre, o intérprete ideal do Gago Apaixonado é o próprio Noel. Daqui em diante, onde quer que se apresente, o samba será número obrigatório, como que uma pièce de résistance de suas exibições (...). Um número irresistível que (...) Noel perpetuará em disco, ele na voz e no violão, Napoleão Tavares no pistom com surdina, Luís Americano na clarineta, Luís Barbosa no seu insólito 'instrumento de percussão', um lápis com o qual tamborila nos próprios dentes, abrindo e fechando a boca de modo a obter com isso efeitos rítmicos ora mais graves, ora mais agudos.
O Miguel Couto do samba
Dois meses depois de ter assistido à sua primeira aula na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Noel já tem plena consciência de que não ficará ali por muito tempo.
Sua passagem pela faculdade faz-se — mais do que se pensará um dia — silenciosa e efêmera. Quase não é notado, limitando sua presença a algumas aulas de fisiologia e histologia na Praia Vermelha e a outras tantas de anatomia na Santa Casa da Misericórdia, na Rua Santa Luzia. Sequer comparece às primeiras provas parciais e não voltará para o segundo semestre, dizendo a todo o mundo que trancou matrícula para recomeçar o curso "a qualquer hora dessas". Só no ano que vem, já definitivamente assentado na profissão de compositor e cantor de rádio, falará claramente de sua decisão de trocar a medicina pelo samba. Por isso, muitos pensarão que ele só o fará no segundo ou mesmo no terceiro ano, quando na verdade já o fez antes da metade do primeiro.
Lauro de Abreu Coutinho, o primeiro aluno da turma de Noel no São Bento, um dos mais compenetrados de todo o colégio, hoje levando ainda mais a sério a medicina, espanta-se [com a decisão do amigo].
— Veja uma coisa, Lauro: como médico eu jamais serei um Miguel Couto. Mas quem sabe não poderei ser o Miguel Couto do samba?
Coração
[A] medicina serviu ao menos para inspirar [Noel] na criação de um de seus mais apreciados sambas, composto ainda no primeiro semestre de 1931: Coração. Classificado [por ele] como "samba anatômico", é um curioso jogo de imagens, a anatomia e a fisiologia do coração.
Cordiais Saudações
Noel Rosa é mesmo um tangará desgarrado. Ou mais que isso. Desde fins do ano passado, quando das gravações de Dona Aracy e Dona Emília, não se apresenta com o conjunto.
O fato é que Noel Rosa vai demorar algum tempo para reintegrar-se aos tangarás. Passam-se abril, maio, junho, julho, e o máximo que o une a Almirante e seus comandados são encontros ocasionais nas esquinas do bairro ou em emissoras de rádio. Durante esses quatro meses, o conjunto grava doze faixas para o selo Parlophon. Com dez delas Noel nada tem a ver.
A reaproximação só se dá a 1º de agosto, no Cassino Beira-Mar, onde a Odeon organiza um festival para promover os artistas do elenco Parlophon, os tangarás entre eles.
O cronista está presente também em Cordiais Saudações, um delicioso "samba epistolar" nos falando de dívidas e devedores, cobradores e maus pagadores, temas de Noel.
Noel faz duas gravações do seu Cordiais Saudações, uma acompanhado pela Orquestra Copacabana (...) A outra, com o Bando de Tangarás (na verdade apenas o piano de Eduardo Souto e o violão de Henrique Britto, por sinal num soberbo diálogo instrumental).
Os tangarás juntam-se ainda uma vez em 1931. A convite de Carlos Ribeiro de Mello Leitão, tio de Alvinho e delegado de polícia em São José dos Campos, São Paulo, concordam em participar no dia 7 de setembro de um espetáculo em benefício da Santa Casa de Misericórdia daquela cidade.
Uma apresentação de sucesso. Uma breve estada em São José dos Campos.
Breve e tranquila, só agitada pelos gritos que Almirante e os outros ouvem na hora de dormir. Todos, quase ao mesmo tempo, correm a abrir as portas de seus quartos. O que será?
Constatam, pasmos, que Noel Rosa simplesmente assusta os outros hóspedes da pensão, correndo sem roupa pelo corredor. O que terá havido? Estará bêbado? Terá saído às pressas de alguma alcova proibida?
Uma cena inesquecível que ninguém jamais chegará a entender, os bem-comportados tangarás com os olhos arregalados de espanto, Noel correndo de um lado para outro. Nu.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
Capa da partitura de Com Que Roupa? com dedicatória para o Diário da Noite.
Caricatura de Lamartine Babo por Nássara.
Autocaricatura de Nássara.

