Leitura Complementar: NOEL ROSA_o5 / Sinhô
Capítulo 12 UM TANGARÁ ABRAÇA O SAMBA (excerto)
Sempre foi e ainda é grande a admiração de Noel por Sinhô, este mulato alto, magro, desdentado, que mesmo em processo de visível decadência física, os pulmões escravizados à tuberculose, não perde o aprumo. Uma admiração tão grande que, tempos atrás, ainda no São Bento, Noel convenceu Hélio a irem juntos conhecer de perto o célebre Rei do Samba, então brilhando no carnaval, no teatro de revistas, nas festas familiares, nos prostíbulos, nas gafieiras ou onde pudesse fazer ouvir os seus sambas:
Mas a visita de Noel e o irmão à casa de Sinhô resultou em constrangimento e desencanto. O Rei do Samba, o grande J.B. Silva, criador de sucessos, apreciado, amado, imitado, morava com a mulher Nair numa casa muito pobre, miserável quase, na Rua Pio Dutra, Ilha do Governador (e é lá que ainda mora, cada vez mais sem dinheiro e sem saúde). Seu único instrumento era um violão barato, de mau som. Sobre uma comprida tira de cartolina, desenhara a lápis teclas brancas e pretas cuja finalidade explicou aos dois rapazes:
— Isso é o meu piano. Preciso dele para compor...
(Depoimento de Hélio Rosa a Jacy Pacheco, incluído por este em Noel Rosa e Sua Época).
Depois disso Noel voltou a ver Sinhô aqui e ali, em casas editoras de música, em festas, na Penha, em Vila Isabel. Reencontrou-o sempre mais pálido, mais gasto. Mas merecedor da mesma admiração. Tanto pelas melodias que compõe como pelas letras que escreve, cariocas, críticas, irônicas, matreiras. Ao gosto de Noel em muitos pontos, em especial na malícia, no duplo sentido de versos que mocinhas ingênuas talvez cantem sem saberem o que significam:
Ou:
Noel realmente admira Sinhô e o estilo de música que ele produz. Acontece que já existe outro tipo de samba sendo feito e cantado no Rio de Janeiro de agora. Nos morros, em alguns bairros, nos subúrbios. Menos conhecido, por enquanto, mas tão inspirado e arrebatador que em breve tomará conta de toda a cidade. Este outro tipo de samba coexiste com aquele a que se dedicam Sinhô, Hilário, Caninha. E também José Francisco de Freitas, o Freitinhas. E toda a turma de Pixinguinha. Aquele samba aparentado com o maxixe, nascido ou não na casa de Ciata — ou de outras 'tias' baianas como Gracinda e Maria Adamastor — mas muito executado em festas, salas de espera de cinema, coretos, teatros, picadeiros, gafieiras. O novo tipo de samba, bem menos difundido, se coexiste com aquele, lhe é muito diferente em forma e conteúdo. E é precisamente esta diferença que seduz o jovem compositor de Com Que Roupa?.
Como, onde e quando terá nascido este samba? Tudo indica que enquanto aquele outro vem do começo da década passada e é produto da Cidade Nova, este mais novo surgiu há poucos anos no Estácio de Sá, bairro situado entre o Rio Comprido e o Catumbi, o morro de São Carlos e a zona do Mangue. Dali se espalhou pelas vizinhanças, galgou as encostas da Saúde, Salgueiro, Mangueira, seguiu as linhas de trem até Ramos, Engenho de Dentro, Penha, Madureira, foi abrindo seus braços para envolver toda a cidade.
Mas se não há dúvidas quanto ao onde e ao quando, o como já é bem mais complicado. Nem mesmo aqueles que plantaram as sementes das quais brotou este samba parecem saber ao certo como tudo começou. Ismael Silva, por exemplo, vai morrer jurando que o samba do Estácio de Sá nasceu, como tanta coisa mais, de uma necessidade. Sendo muitas vezes feito para os desfiles dos vários blocos das redondezas — ao passo que o samba da Cidade Nova destinava-se mais a animar os bailaricos organizados pelas 'tias' baianas —, estaria nesse detalhe a diferença. Isto é, segundo Ismael, à necessidade que os blocos têm de cantar sua música marchando e não dançando, deve o samba do Estácio de Sá as suas características, a estrutura rítmica e os contornos melódicos que o distinguem. Embora seja uma explicação respeitável — ainda mais por vir de alguém que caminha para se tornar um dos reis deste tipo de samba —, não encerra a questão. Afinal, há muito de dançável também no samba do Estácio de Sá. E muito de amaxixado no que cantam os demais blocos do Rio.
O que conta, porém, é que o samba do Estácio de Sá é rítmica, melódica e poeticamente distinto do samba da Cidade Nova. As dessemelhanças rítmicas talvez se devam a ter sido ele criado a partir dos refrãos cantados nos improvisos de partido-alto e rodas de batucada, herdando destes uma pulsação por si só já diferente da dos sambas de Sinhô, nos quais ainda se encontram vestígios não só do maxixe, mas também do lundu. Tal pulsação — sua alma — resulta de ser o acompanhamento feito basicamente por instrumentos de percussão, na maioria fabricados pelos próprios ritmistas ou por eles inventados. Se na Cidade Nova as festas são animadas por músicos treinados, bons tocadores de piano, flauta, clarineta, cordas e metais, no Estácio de Sá, salvo por um ou outro violão ou cavaquinho em mãos desajeitadas, tudo é tamborim, surdo, cuíca e pandeiro. Ou acompanhamento ainda mais rudimentar, palmas cadenciadas ou batidas em mesas, cadeiras, copos, garrafas. Uma seção rítmica barata, bem de acordo com as magras algibeiras do sambista. O certo é que aos poucos os estribilhos de partido-alto e batucada foram se transformando, se enriquecendo, trocando os dois, três versos de antes por maior arrojo formal. As segundas partes deixaram de ser improvisadas e começaram a ser feitas especificamente para cada samba. Este detalhe, somado à mudança de pulsação, acaba alterando também a estrutura melódica, agora recorrendo a desenhos mais extensos e elaborados.
Quanto à parte poética, o sambista do Estácio de Sá canta em suas letras, da maneira mais simples, a vida dos morros e das casas de cômodos, das populações pobres, dos malandros e de outros indivíduos à margem da sociedade. Marginalização esta que mantém sua música longe do disco por tantos anos, sua divulgação fazendo-se naturalmente, de modo espontâneo, de boca em boca. Mas é mesmo desta vida marginal que fala a maioria dos sambas de lá. Seus temas são a valentia, a batucada, o jogo, a orgia, o malandro e suas mulheres, o sambista desocupado e suas promessas jamais cumpridas de regeneração.
Se Hilário, Freitinhas, Caninha, Sinhô são os bambas da Cidade Nova, o Estácio de Sá também tem os seus nomes de respeito, Alcebíades e Rubem Barcellos (este morto há dois anos, prematuramente, de tuberculose), Edgar Marcelino dos Passos, o Mano Edgar, Francelino Ferreira Godinho, Oswaldo Caetano Vasques, o Baiaco. E também Tibélio dos Santos, Sylvio Fernandes, tão preto que o chamam de Brancura. E ainda os dois melhores dentre eles todos: Nílton Bastos e Ismael Silva. São negros e mulatos que moram ou transitam por ali. Uns trabalham, outros jamais o farão, mas todos cultuam o samba. Costumam se reunir de noitinha no Café do Compadre, no número 26 da Rua Santos Rodrigues, de propriedade do português José Domingues. Ou então no Apollo, mais para o Largo do Estácio. Ou ainda em qualquer parte onde se possa, entre duas esquenta-por-dentro, improvisar música e versos. Mas foi mesmo no terreno de uma das casas de cômodos da rua Estácio de Sá, esquina de Maia de Lacerda, que estes sambistas se reuniram, há um ano, para organizar o bloco Deixa Falar. Tão importante que vai reivindicar — não sem bons motivos — a honra de ter sido a primeira 'escola de samba' da história.
A muitos desses sambistas Noel conhecerá de perto. De outros ouvirá apenas os nomes e os sambas:
Ou meros refrãos como este de Rubem Barcellos:
Até esta segunda metade de 1929, não muitos desses sambas chegaram ao disco. Mas os que o fizeram, se Noel teve oportunidade de ouvi-los (como provavelmente teve), serão o bastante para reforçar ainda mais sua convicção de que este é o melhor samba carioca.
Por exemplo:
Ou este:
Ou muito especialmente este:
Ou ainda este:
São sambas admiráveis, realmente diferentes dos produzidos pela escola de Sinhô. Sambas melodiosos, de frases musicais mais longas, as notas mais agudas impregnadas de nostalgia e beleza: "Eu sou um infeliz, bem sei"... São deliciosas as frases mais curtas do maxixe e do samba que lhe é aparentado, mas isso que vem assinado por estes desconhecidos compositores do Estácio, Alcebíades, Nílton, Ismael, e chega ao disco pelas vozes de Francisco Alves e Mário Reis, tem outra espécie de magia. Noel Rosa percebe que, em matéria de música popular, há um tesouro escondido em algum lugar. Pedras preciosas, algumas ainda brutas, luzindo nas mãos destes sambistas que compuseram A Malandragem, O Destino É Deus Quem Dá, Novo Amor, Me Faz Carinhos.
Quem primeiro descobriu o mapa desse tesouro foi Francisco Alves. Que sensibilidade musical tem este cantor! Que faro para desencavar boa música onde ninguém imagina existir coisa alguma! Se os compositores do Estácio de Sá começam agora a chegar ao disco, aos teatros, aos circos, tornando-se conhecidos do grande público, devem isso a Francisco Alves que, mapa na mão, foi atrás deles lá nos desvãos em que se escondem. Noel sempre soube desta intuição de Francisco Alves, desta sua capacidade para desenterrar tesouros. Por isso, já nos tempos de São Bento, andava seguindo o cantor até as lojas de disco, as casas editoras de música, tentando aproximar-se dele. Francisco Alves mal o notava. Afinal, quem era Noel Rosa?
(Renato Murce lembra-se de Noel Rosa, em 1927 ou 1928, aparecendo pelas casas de música, com uniforme do São Bento, tentando aproximar-se de Francisco Alves e outros nomes já famosos da música popular. Em entrevista aos autores de Noel Rosa, Uma Biografia, Murce conta como vários outros novatos — entre eles Ary Barroso — eram desdenhados pelo cantor.)
Hoje, dando seus primeiros passos como compositor popular, Noel tenta chegar ao tesouro por conta própria. Seus primeiros contatos com o samba do Estácio de Sá podem ter acontecido de muitas formas. Talvez ao tempo de estudante, quando, financiado por colegas como o Ministrinho, frequentava o Mangue e seus cafés onde se ouvia música ao vivo. É bom lembrar que bem perto, colado ao Mangue, está o Estácio. E mais adiante o Catumbi e o Rio Comprido. E que muitos habitantes do morro de São Carlos e malandros das imediações já eram praticamente 'moradores' daquela zona boêmia. Pode ser, também, que tais contatos se tenham dado nos carnavais da Praça 11 de Junho. E se intensificado mais tarde, já em Vila Isabel, através do que para lá têm levado Canuto, Puruca, Maciste, Osso, gente do morro. Ou quem sabe não terá ocorrido nas constantes peregrinações do jovem compositor a bairros e morros como Madureira, Oswaldo Cruz, Mangueira, Ramos, Salgueiro, lugares aonde já chegou o novo samba, levado ou não pelos sambistas do Estácio de Sá? De qualquer modo, Noel deixa-se seduzir por ele muito antes de os outros tangarás despertarem de seu sono nordestino para a realidade da autêntica música carioca.
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Diz Ismael Silva a Sérgio Cabral:
"Nós ajudávamos muito a Portela. Ajudar no sentido de divulgar, promover. A Mangueira também, nós ajudávamos bastante. O pessoal do Estácio era sempre convidado para ir a todos esses lugares. Nós tínhamos muito prestígio na época"...
Marília T. Barbosa da Silva e Lygia Santos, em Paulo da Portela, Traço de União Entre Duas Culturas, contam:
"Todos os fundadores da Portela por nós inquiridos foram unânimes em afirmar que foi o pessoal do Estácio que levou o samba para Oswaldo Cruz".
Os sambistas do Estácio, na verdade, circulavam muito. Compreende-se que a troca de informações musicais se desse rapidamente. O samba do Estácio e vizinhanças, nascendo ou não ali, espalhou-se. Cedo ou tarde Noel e os outros rapazes de classe média de Vila Isabel teriam de tomar conhecimento dele. Só que Noel o fez primeiro.
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Com Que Roupa? nasce perfeitamente identificado com os arrojos formais dos sambas do Estácio de Sá. Se não parecerá tanto, será porque os acompanhamentos instrumentais de suas duas primeiras gravações — uma de regional, outra de orquestra — ainda estarão muito afinadas pelo diapasão do maxixe. Mas certo é que, chegado o momento de romper com o modismo das coisas nordestinas para levantar voo em forma de samba, é nas asas da turma do Estácio de Sá que Noel embarca. Não tentando fazer igual a Rubem, Baiaco, Brancura, Nílton, Ismael, sambistas que no máximo conhece de vista, mas inspirando-se neles para criar seu próprio estilo. Nesse sentido, Com Que Roupa? é obra formalmente nova, revolucionária quase. Não que vá fazer escola, estabelecer modelos, abrir caminho para que outros por ele sigam. Revolucionária porque representa um começo de rompimento dos jovens compositores de classe média — Noel e só depois dele o Bando de Tangarás primeiro com o pseudo-sertanejo e logo em seguida com o samba amaxixado que a partir de 4 de agosto de 1930, quando morre Sinhô, vai morrer também.
Mas tio Eduardo, um dos primeiros a ouvir Com Que Roupa? pronto, não percebe nada disso. Como não percebe que os três compassos iniciais do novo samba que o sobrinho canta, ou seja, o verso "Agora vou mudar minha conduta...", têm rigorosamente as mesmas notas que Francisco Manuel da Silva compôs há quase cem anos para o Hino Nacional Brasileiro. Plágio? Evidentemente que não. Nenhum compositor, nem mesmo o mais desfaçado, ousaria tanto. Distração? Pouco provável. Noel, que adora solar o Hino Nacional ao violão e desde o São Bento vive fazendo paródias sobre sua melodia, dificilmente não perceberia a semelhança. Coincidência? Quem acreditaria?
Não é curioso que Noel Rosa retrate o 'Brasil de tanga' num samba que começa justamente com as mesmas primeiras notas do Hino Nacional, "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas"? Ou terá sido intencional? Quem sabe Noel pretendeu mesmo fazer esta citação quase literal à melodia do Hino Nacional? A resposta há de morrer com ele. Mas, (...) muito possivelmente o samba nasceu como mais uma entre tantas paródias do Hino Nacional, em cima da qual Noel teria retrabalhado, alterando a melodia e mantendo apenas a citação do primeiro verso.
Transcrito de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
Sinhô, o Rei do Samba. Caricatura de K. Lixto.
Sinhô.
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