Pequenas Biografias: NOEL ROSA_o7
Ary Barroso
A breve trajetória de Noel Rosa pelo mundo do teatro de revistas — limitada a apenas quatro peças, todas encenadas em 1931 — trouxe-lhe dois grandes proveitos: tornou-o mais conhecido e aproximou-o de Ary Barroso, outro moço de extraordinária musicalidade que há de trocar o anel de doutor pelo samba.
Sete anos mais velho que Noel, Ary ao menos chegará a completar o curso de direito, embora para pendurar o diploma, deixar que se cubra de poeira, usá-lo apenas para agradar a família, suas velhas tias avós de Ubá, Minas, onde nasceu há 27 anos.
Quando se diz que Ary tem extraordinária musicalidade não se fala por falar. Pianista, músico com estudo, uma veia inquestionavelmente criativa, é o único dos compositores brasileiros desta época destinado a criar um tipo de samba que, não sendo Cidade Nova nem Estácio, tem força o bastante para abrir novos caminhos à música popular brasileira. São exemplos disso Vou à Penha, de 1929, e Faceira, deste ano. Pode-se dizer que, se o primeiro grande sucesso de Ary, Vamos Deixar de Intimidade, também de 1929, pautava-se pela escola de Sinhô e dos outros sambistas amaxixados, tudo o que tem feito recentemente ressabe a originalidade, a coisa nova, sua. A obra que criará nos próximos anos — No Rancho Fundo; Foi Ela; Na Batucada da Vida; Maria; Tu; É Mentira, Oi! — falará de sua singularidade.
O que, certamente, não escapa à acuidade de Noel. Durante Café Com Música os dois apenas se encontraram nos bastidores do Recreio, cada qual passando às mãos do diretor o que era seu, nenhuma colaboração se concretizando. Já em Mar de Rosas — revista de Gastão Penalva e Velho Sobrinho, também no Recreio — a aproximação se faz de forma mais efetiva.
Noel havia escrito um samba para um dos quadros, intitulado Mulata Fuzarqueira, de melodia interessante e versos que tentavam reproduzir o linguajar dos morros cariocas.
Que samba e dá rasteira
Que passa as noite inteira em claro
Mas o que realmente assinala a presença de Noel Rosa nesta revista, estreada a 24 de julho de 1931 com Margarida Max no principal papel, é a letra que escreve para a música composta por Ary com vistas a um quadro dedicado aos bravos navegadores que levam a vida desafiando as incertezas do mar. É uma letra claramente otimista, mas com duplos sentidos bem à maneira de Noel, as expressões "mão no remo" e "mete a vela" empregadas, habilmente, com significados ambíguos. Sílvio Caldas — que nesta mesma revista canta Cordiais Saudações, sentado a uma mesa, fingindo escrever uma carta ao amigo devedor — é quem lança soberbamente o samba de Ary e Noel, Iça Vela, mais tarde renomeado Mão no Remo.
O azar é natural
Não há nada mais fatal
E a justiça é cega
Mas se os ventos sopram contra
Ou se vem a tempestade
Nunca mais o barco encontra
O porto da felicidade
Com toda coragem
Pra levar vantagem
No mar desta vida
Pois se queres ser feliz no amor
Tens que remar com ardor
Quando for a hora
De ir mar afora
Em busca da sorte
Aproveitando a maré a favor
Terás pra sempre valor
(...) É evidente que a musicalidade de Ary impressiona Noel. Seus sambas, melódica e ritmicamente originais, instigam o jovem poeta de Vila Isabel. Do contrário, ao ouvir num dos quadros de Vai Com Fé, revista estreada no mesmo Recreio a 12 de agosto de 1932 (portanto, daqui a um ano) um samba com música e letra de Ary (...), não se sentiria tentado a criar para ele nova letra. Manteve o refrão e, com a permissão de Ary, escreveu novas segundas partes, rebatizando o samba como De Qualquer Maneira.
Infelizmente Noel e Ary farão apenas três sambas juntos. Todos excelentes. É que seus habitats são muito diversos, Ary mais próximo do pessoal do teatro, de uma classe média mais refinada, jamais se misturando à gente do morro, pouco frequentando o Café Nice (prefere fazer ponto no Rio Branco, ali na Rua São José, onde se reúne a turma de futebol do Flamengo, uma das suas grandes paixões). Vive enfim em outro sistema planetário, tocando piano em festas grã-finas, cultivando uma boêmia mais moderada, em nada parecida com o quase submundo em que anda Noel.
O Rei da Voz e o Doutor em Samba
— Às vezes, quando Chico abre aquele vozeirão, me dá vontade de chorar — confessa Tute, cujo violão tem emoldurado com frequência a voz de Francisco Alves.
Grandes cantores surgiram antes dele. (...) E muitos outros surgirão depois.
Mas nenhum conseguirá manter-se por tanto tempo no auge. Francisco Alves cumprirá, até o final de seus dias, uma carreira longa, sem curvas, sem oscilações, permanentemente no topo. É, sem dúvida, a grande estrela da música popular destes dias.
[É] um cantor que vale por dois. Literalmente. Grava discos com o próprio nome na Odeon e com o de Chico Viola na Parlophon. (...) não há exagero quando se diz que, em termos de conquista da preferência do público, Chico Viola é mesmo o único que pode competir com Francisco Alves.
Chico e o Pavão
(...) a maior acusação que se faz a Francisco Alves é a de que vive a explorar sambistas do morro, comprando-lhes parceria. Claro, Francisco Alves não é o único a fazer isso. Muitos outros merecem o nome que o pessoal do Nice lhes dá: 'comprositores'. Quer dizer, compram em vez de compor. Mas Francisco Alves, neste particular, é o mais ativo, o mais vivo. Ismael Silva, Nílton Bastos, Alcebíades Barcellos, de quanta gente ele tem comprado parceria, colocando seu nome nas partituras, nos selos dos discos, em toda parte? E às vezes só o seu nome, condenando o verdadeiro autor ao anonimato.
Francisco Alves também mora em Vila Isabel. (...) as primeiras conversas entre ele e Noel (sobre a possibilidade de fecharem negócio em torno de um automóvel) não dão em nada. O carro que Francisco Alves tem para vender, um Chevrolet cor de azeitona, custa cinco ou seis vezes mais do que Noel pode pagar. O que não os impede de falarem em outros assuntos. Samba, por exemplo. Francisco Alves sabe do talento de Noel, não é segredo para ninguém que este rapaz magrinho, de olhos inteligentes e fala mole, que o vem procurar a propósito de automóveis, anda por aí 'consertando' letra de música de muita gente. Na certa poderá lapidar algumas das pedras brutas que o cantor vive descobrindo nos morros e bairros distantes.
(...) Noel, como qualquer outro compositor de agora, não poderia deixar de pensar na possibilidade de ter uma de suas músicas cantadas por ele. Por isso, caprichou em novo samba, deu-lhe a forma de diálogo, citou astuciosamente o nome de Francisco Alves na letra (tornando-o assim uma espécie de propriedade particular do cantor), intitulou-o É Preciso Discutir e levou-o até a casa da Rua Justiniano da Rocha.
— É para você gravar com o Mário.
Assim, a partir dos primeiros dias de 1932, Noel Rosa e Francisco Alves estarão mais próximos. Pela música e pelos carros, uma coisa ligada à outra. Ao perceber em Noel uma mina de ouro, um possível 'compositor exclusivo' como muitos que já tem, o cantor põe em jogo sua habitual sagacidade:
— Você ainda está interessado naquele Chevrolet?
Interessado Noel está, mas pelo preço é melhor que nem reabram o assunto.
— Vamos fazer uma coisa: você fica com o carro e me paga em samba.
Noel ouve os detalhes da proposta, a cada samba cujos direitos autorais ceder a Francisco Alves, este vai tirando uma fatia do total. Cinquenta hoje, 30 amanhã, 100 depois, Noel verá como o Chevrolet se pagará rápido, sairá quase de graça. Que pelo menos estude a proposta. Francisco Alves diz que está para ir a Buenos Aires (...). Na volta conversam. Não resta a menor dúvida, Noel vai aceitar a proposta. Tem até um nome para o novo carro: Pavão.
A aproximação com Chico Alves vai tornar próximos também Noel e Ismael Silva. Ismael será a partir daí o parceiro mais constante de Noel. Encontro tão fundamental que os autores de Noel Rosa, Uma Biografia dedicaram a ele um capítulo inteiro: Um Certo Ismael.
Lindaura
Desde que comprou o Pavão, pago a peso de samba, Noel Rosa tem podido levar suas namoradas a passeios bem mais distantes e prolongados. Capota arriada, [acompanhante] sentada ao seu lado no banco da frente, ele passa pelo Ponto de 100 Réis fazendo soar a bizarra buzina do seu carro e acenando para os amigos que conversam na esquina. Pé no acelerador, toma o caminho de Jacarepaguá, Leblon, Campinho, Deus sabe onde.
Lindaura é morena, (...) trabalha na Lavanderia Cooperativa, na rua Maxwell, e já foi aluna da escolinha de dona Martha. (..) Hoje, crescida, corpo de mulher feita, nada tem a ver com a garotinha daqueles tempos. É, sim, uma das muitas moças que Noel assedia ao volante do Pavão neste outubro de 1933. (...) Ela não tarda a aceitar o convite para umas voltas.
Os dois passam a sair juntos quase todas as noites. (...) Os passeios são a princípio curtos e inocentes, até a Praça Saenz Pena, o Grajaú, no máximo até o Rio Comprido ou Boca do Mato. Mais tarde Noel envereda por lugares mais distantes e desertos, Leblon, Joá, Alto da Boa Vista.
(...) o fato de o Pavão não ser mesmo um local confortável e romântico o bastante para se namorar, leva Noel a só usar o automóvel como transporte. Ele e Lindaura passam a se encontrar em outros lugares. Como as cabines (na verdade, barracões de madeira) que dona Chiquinha aluga na Ponta do Caju, de dia para banhistas trocarem de roupa, de noite para casais. Ou como um dos muitos hotéis baratos que há no centro da cidade.
O "erro"
A segunda-feira parece ser um dia como outro qualquer. (...) No fim da tarde, Noel dorme profundamente no quarto dos fundos, quando é despertado pelos safanões de Hélio.
— Noel! Noel! A polícia está aí te procurando.
Pouco depois, Noel ainda atordoado, a família se reúne na sala ao lado da cozinha. Dois policiais, investigadores da 16ª Delegacia, medem as palavras para dizerem, na frente de dona Martha, que há uma queixa contra o filho sobre a mesa do comissário. Coisa séria, já anotada no livro de partes. Martha e Hélio estão perplexos.
— Mas de que se trata?
Os policiais explicam que uma certa dona Olindina, residente aqui perto, procurou o comissário para acusar formalmente Noel.
— De quê? — indaga o próprio Noel finalmente despertando.
— De rapto.
(...) Passado o susto inicial de Martha, os policiais explicam que Noel é acusado de ter raptado (...) uma jovem. Tem de ir à delegacia, o comissário quer interrogá-lo. Martha está aflita:
— Mas o que você andou fazendo?
— Nada, absolutamente nada — responde com firmeza.
(...) Será verdade? Noel sai entre os dois homens da lei. (...) Lá dentro, Martha e Hélio nem sabem o que dizer.
Na 16ª Delegacia Policial — no Boulevard, quase esquina de Silva Pinto — todos conhecem Noel Rosa. De conversa de esquina, de vista ou de nome. E gostam dele. Por isso não o tratam como um criminoso, um preso comum, mas como um menino surpreendido em mais uma travessura.
— Ora, ora, seu Noel...
O próprio comissário explica-lhe que uma senhora, Olindina Pereira da Motta, esteve de manhã na delegacia para acusá-lo formalmente de haver raptado a filha, Lindaura. A moça não dormiu em casa de ontem para hoje.
Noel jura que não houve nada disso. De fato, saiu com Lindaura, os dois passaram a noite num hotel da Rua Senador Euzébio, ele abusando um pouco da bebida, pegando no sono, esquecendo-se da hora. Quando acordou, já era de manhã. Mas não houve rapto. Lindaura saiu com ele porque quis, ninguém a forçou.
— Mas a moça é menor de idade, seu Noel.
Verdade. Lindaura tem dezessete anos. Crime de sedução de menor? Noel jura que não. Que história é essa de rapto e sedução de menor, crime? Não é o primeiro homem na vida dela. Pode até provar. Mas o comissário diz que a mãe da moça não quer conversa: ou Noel repara o erro, ou vai para a cadeia.
— Reparar o erro?
— Sim, casando.
— Pois eu vou para a cadeia.
Olindina
Irascível e determinada, Olindina vai ao chalé para uma conversa franca com os Medeiros Rosa. Quer que Noel se case com a filha.
— Se for mesmo o responsável — diz Martha — eu lhe prometo que o fará. A senhora pode deixar que eu vou ter uma conversa com ele.
De uma hora para outra — e por bastante tempo — o chalé é transformado em palco de constantes discussões, Martha e Noel, Martha e Olindina. No início, fala-se à meia-voz, na cozinha ou nos fundos da casa. Mas pouco a pouco a mãe de Lindaura se convence de que Noel não quer mesmo saber de casamento, de que Martha não consegue dobrar o filho. É a partir daí que Olindina muda o tom de voz, fazendo cenas no chalé, xingando, esbravejando, acusando os Medeiros Rosa de "desencaminhadores de menores", gente sem palavra. Martha teme que tais cenas prejudiquem a escolinha, crianças inocentes ouvindo o que não devem. Por isso, quando Olindina chega, vai tratando de dizer:
— A senhora se incomodaria de conversarmos aqui ao lado?
Adese
(...) na edição de quinta-feira, 29 de novembro — sob a manchete "A indiscrição da página 95: é pelo livro de partes da delegacia que se conhece uma diabrura amorosa do sambista Noel Rosa" — O Avante! conta toda a história. (...) Uma história ilustrada por caricatura de Nacim Adese: Noel ao volante do Pavão, com o violão na mão esquerda e sua musa lá no alto, pairando como uma lua a iluminar a fábrica de tecidos e sua chaminé de barro (pois a reportagem supõe, erradamente, que Lindaura é a inspiradora de Três Apitos).
O assunto torna-se público. Passa a ser comentado em toda parte, no Nice, na Lapa, nas esquinas de Vila Isabel, nos estúdios das rádios.
Dias depois, Noel sobe ao primeiro andar do prédio número 144 da Rua Uruguaiana, onde funciona a redação do Avante!.
— Eu queria falar com o Nacim Adese.
Quem o atende não pode deixar de reconhecê-lo. E de tirar suas conclusões: indignado com a reportagem da página oito, Noel Rosa na certa veio pedir satisfações ao Adese. Talvez queira briga, talvez lhe diga alguns desaforos. Outros, na redação, pensam o mesmo. Até que o próprio Adese, meio sem jeito, já pensando numa desculpa, aparece:
— Você é o Adese?
— Sim.
— Eu sou o Noel Rosa. Será que se incomodaria de me emprestar o original daquela caricatura para a capa da partitura do Três Apitos?
A porta da rua
Certa noite, Olindina Pereira da Motta prova que não é só de ameaças. Abre a porta da rua, manda que a filha saia e jura que só a receberá de volta, no honrado lar da rua Maxwell, 74, casa 2, quando estiver casada. De papel passado e tudo.
Transcrito (com adaptações) de:
Noel Rosa, Uma Biografia. © 1990, João Máximo & Carlos Didier. Editora UNB.
Imagens:
1932. A bordo do Itaquera, em excursão aos estados do Sul. Sentados: Peri Cunha, Mário Reis, Francisco Alves, Noel Rosa e Nonô. Em pé, passageiro não identificado.
Caricatura de Nacim Adese para o jornal O Avante!


